Sala de Aula, Política e Política Partidária

Começamos um ano eleitoral. Política vai ser um tema central desde os noticiários até as conversas entre familiares que ainda tenham resistido à polarização. E também nas escolas e salas de aula. É por isso que vale a pena uma reflexão sobre duas coisas distintas: política e política partidária.

Não há como uma pessoa deixar de fazer política. Quem sabe Kant tenha sido o filósofo com cotidiano mais metódico e avesso à política institucional, mas, nas palavras de Sartre, sua produção intelectual não se exila da política.

Se Kant é um filósofo sistemático, conhecido por se ter mantido afastado de toda e qualquer atividade política, isso não significa que sua filosofia não tenha desempenhado certo papel político. (Sartre, O Existencialismo é um Humanismo)

Se política se insere no campo das relações de poder, não há como não fazer política a cada tempo na medida em que o espaço a nossa volta é pautado, entre outros, por essas relações. As pessoas estão o tempo todo acumulando ou perdendo capital (Bourdieu) em relações sociais diversas.

Os agentes no espaço social – espaço de força (no sentido estático) e de lutas (no sentido dinâmico) – estão continuamente lutando por meio de estratégias (simbólicas e materiais) desenvolvidas com vistas à manutenção e à reprodução da posição social. (Monteiro, José Marciano. 10 lições sobre Bourdieu)

Ilustrando.

Quando uma pessoa não reconhece (propositadamente ou não) uma assimetria de formação escolar com o interlocutor e usa de vocabulário mais rebuscado, está fazendo política. Ao contrário, quando a pessoa de maior formação escolar se esforça para ser entendido em uma relação mais isonômica, isto também é política.

SGA Notícias: Charge do Bessinha
Charge: Bessinha

Ao fazer um piada misógina, racista ou LGBTQIA+fóbica e, logo em seguida dizer que até tem amigos negros e gays e que lava a louça em casa, esta pessoa está fazendo política.

5 piadas de Danilo Gentili não tiveram a menor graça - VIX
Charge: Laerte

Quando se usa das redes sociais para postar os lugares incríveis e frequentemente caros que foram visitados, isto é fazer política.

Dando mais um passo, é possível entender algum sentido nesse exercício político realizado por qualquer pessoa. Afinal, acompanhando Paulo Freire, todos são dotados de bases ideológicas, mas elas podem se traduzir em ações inclusivas ou excludentes. E como isso poderia ser aplicado em sala de aula?

Primeiro, respeito ao aluno. Respeito é reconhecimento da alteridade, é inclusivo. Não apenas respeito pelo aluno, mas o primado do respeito em toda a dimensão da sala: relação professor aluno; relação aluno-aluno; forma e conteúdo ministrados.

Um desdobramento disso, como lidar com assuntos previstos nos conteúdos programáticos ou a eles transversais? Assuntos como Política Econômica, Reforma Agrária, Racismo, Feminismo? Primeiro, bom preparo dentro do rigor acadêmico científica e filosoficamente pautado. Em seguida, sob orientação de um ideal de Direitos Humanos que se desdobra necessariamente em uma lógica de inclusividade. Isso não deve ser uma opção do professor, deve ser obrigação.

Trabalhada a questão da política na sua relação com a sala de aula, o que não dizer acerca da política partidária?

Trata-se de um esforço de ação coletiva no qual um agrupamento de pessoas tem afinidade ideológica e atua conscientemente com objetivo de operar uma transformação da sociedade. Como esclarece Bobbio em seu Dicionário de Ciência Política citando Weber: Segundo a famosa definição de Weber, o Partido político é “uma associação… que visa a um fim deliberado, seja ele ‘objetivo’ como a realização de um plano com intuitos materiais ou ideais, seja ‘pessoal’, isto é, destinado a obter benefícios, poder e, consequentemente, glória para os chefes e sequazes, ou então voltado para todos esses objetivos conjuntamente.” (Bobbio, Dicionário de Ciência Política)

Partidos políticos sem valor? – A FOLHA TORRES

O Partido e a Política Partidária tem seu espaço na sociedade, em hipótese alguma são atividades passíveis de críticas pelo seu exercício em si. Mas não são, em hipótese algum, atividades idênticas ao exercício político do cidadão na sociedade. Não há política partidária sem política, claro, mas há política que não seja partidária.

País precisa superar a intolerância para retomar a democracia - Rede Brasil  Atual

A sala de aula pode ser o lugar do exercício de Política Partidária, mas em regime especial. Por exemplo, a escola resolve trazer candidatos a cargos públicos para serem sabatinados pelos alunos. Mas a sala de aula não pode ter em hipótese algum um professor que seja agente de Política Partidária nas aulas. O motivo é simples de acordo com o texto até aqui. Alinhamento à política partidária em regime de eleições competitivas pode, muito provavelmente, excluir outra opção partidária. A sala deixa de ser o ambiente do encontro para produção de conhecimento para se tornar um ringue em disputas excludentes de posições políticas. Sala de aula é um ambiente político, não um ambiente de lutas partidárias.

Teorias Demográficas: Desrazão e Direitos Humanos

Teorias demográficas se caracterizam como um esforço para entender de forma sistêmica as causas e consequências do crescimento da população. Na Modernidade Ocidental frequentemente são utilizados argumentos econômicos para sustentar o entendimento do comportamento demográfico, mas também fatores religiosos, raciais ou políticos são utilizados. Em Estados autoritários ou em países com algum déficit de participação política popular os setores mais vulneráveis da sociedade são mais atingidos em políticas demográficas mais agressivas com esterilizações forçadas: mulheres frente aos homens; mulheres negras em sociedades racistas; minorias étnicas; populações pobres.

A teoria demográfica que mais se notabilizou no Mundo Ocidental com desdobramentos em políticas demográficas por todo o mundo foi a denominada teoria neomalthusiana. Para melhor entender suas características e suas contradições, nada melhor que partir de Malthus, fonte na qual beberam os neomalthusianos.

Teoria Malthusiana

Credit: Getty Images/Pictorial Parade
Thomas Manthus

Economista e pastor anglicano que viveu entre 1766 e1834. Sua forma de entender a dinâmica de crescimento da população foi eternizada na assimetria entre crescimento demográfico (progressão geométrica) e meios de subsistência (alimentos, em crescimento aritmético). O crescimento populacional poderia ser contido por condições inesperadas como difusão de doenças ou guerras. Mas certamente a fome abateria boa parte da população pobre limitando a quantidade total de pessoas em uma situação de equilíbrio.

Uma chave de entendimento do pensamento de Malthus sobre demografia está na Lei dos Rendimentos Decrescentes. Segundo Sandroni (Dicionário de Economia, disponível aqui no Geovest):

Também conhecida por Lei das Proporções Variáveis ou Lei da Produtividade Marginal Decrescente. Pode ser conceituada da seguinte maneira: ampliando-se a quantidade de um fator variável, permanecendo fixa a quantidade dos demais fatores, a produção, de início, aumentará a taxas crescentes; a seguir, após certa quantidade utilizada do fator variável, passará a aumentar a taxas decrescentes; continuando o aumento da utilização do fator variável, a produção decrescerá.

Assim, o aumento da quantidade de trabalhadores em uma pequena propriedade rural escocesa do século XVIII, resultado do crescimento da família, não resultará em proporcional aumento da produção. Se a produção, os rendimentos da família, tendem à estabilização, os custos de criação dos filhos aumentam. Eventualmente as condições de vida precárias da família inviabilizam seu crescimento devido ao aumento da mortalidade.

Um detalhe interessante, Malthus, religiosos como era, condenava a assistência aos pobres. Afinal, coerente com seus argumentos, o auxílio às populações mais carentes resultaria na manutenção dos crescimento demográfico e num dreno crescente de recursos sociais. Por essa via, nem os “brioches” seriam dados aos pobres.

A teoria de Malthus tem muitas falhas elucidadas ao longo do tempo:

  1. o crescimento demográfico foi muito menor desde o século XVIII frente às projeções malthusianas;
  2. o crescimento da oferta de meios de subsistência foi significativo devido ao aumento da área agrícola e das tecnologias empregadas; além disso, para além do rural, o crescimento da produção de mercadorias na indústria do século XX (fordista e, eventualmente, toyotista) foi significativo;
  3. a Lei dos Rendimentos Decrescentes vale bastante bem para uma pequena propriedade escocesa do século XVIII, mas não vale para as plantations fora da Europa à época de Malthus ou para a grande agroindústria altamente mecanizada na atualidade.

Mas esses são erros pontuais. Há um problema de muito maior gravidade na teoria malthusiana que resulta do moralismo elitista. Se o que piora as condições de vida da família é a prole numerosa, restam as perguntas: quem “fez” os filhos, quem é o responsável pela gravidez? A resposta é: o próprio pobre. Assim, de forma tão hábil quanto desumana, se atribui a culpa da pobreza aos próprios pobres. Os pobres, resultado de uma sociedade que distribui a riqueza de forma desigual, são uma consequência da sociedade classista capitalista, mas isso fica escondido sob o manto de ideologia de Malthus.

Neomalthusianismo

Ao longo do século XX, principalmente na segunda metade, os países pobres entraram em processo de Transição Demográfica com tendência inicial de rápido declínio da mortalidade e permanência de taxas de natalidade elevadas. O crescimento de massas de populações no chamado Terceiro Mundo acendeu o alerta do mundo desenvolvido. Afinal, quais seriam os desdobramentos políticos de tamanho crescimento de população? Isso afetaria as relações de poder mundiais? Inviabilizaria os investimentos nesses países? Era hora de países centrais financiarem e/ou imporem políticas demográficas antinatalistas. Essas políticas, extremamente agressivas, precisavam de “justificação”. Era hora de resgatar Malthus polindo seus carcomidos argumentos.

Os argumentos neomalthusianos aparentam maior rebuscamento frente à velha assimetria de população e alimentos de Malthus:

  1. o crescimento populacional reduz a renda per capita e as condições de vida das populações;
  2. o crescimento populacional aumenta o contingente de população jovem reduzindo o percentual de População Economicamente Ativa (PEA) que exerce atividade produtiva e paga impostos diretos;
  3. o crescimento populacional aumenta a pressão sobre os recursos naturais aumentando a crise ambiental.

Um dos ícones desse pensamento antinatalista do século XX foi William Vogt (1902-1968). Algumas passagens notáveis do ecologista e ornitólogo americano estão a seguir:

os insetos portadores de enfermidades humanas transformam grandes áreas do globo em terras que ficam à margem da atividade do homem. Tal infortúnio não é, todavia, tão importante como tem sido sugerido pelos que propõem o controle da malária. Em muitas áreas, a malária é, realmente, uma benção disfarçada, já que uma grande proporção das zonas contaminadas não pode ser aproveitada, tendo a doença, desse modo, impedido que o homem destruísse tais terras.

E ainda:

Em certas áreas da África, onde o mosquito tsé-tsé foi localmente dominado, as populações nativas devastaram as terras anteriormente despovoadas, tendo, em poucos anos, destruído virtualmente sua capacidade de produção […]. Neste caso, o mosquito tsé-tsé, em lugar de constituir um fator de limitação para o homem, foi, verdadeiramente, um protetor de importantes recursos naturais.

William Vogt And The Road To Survival | The Message by Yan Vana
William Vogt

Novamente, o mesmo viés desumano. Novamente, também, a mesma insustentabilidade da teoria em termos empíricos.

Primeiro, ao longo do século XX houve crescimento da renda per capita mundial, mesmo em muito países pobres nos quais o crescimento vegetativo era significativo. A questão da qualidade de vida das populações, tão cara ao humanismo necrófilo neomalthusianos, não é medida pela renda per capita, mas por outros indicadores (IDH, IPH, Gini). Além disso, países pobres que aceleraram o processo de transição demográfica (China, por exemplo) fecharão mais cedo sua “janela demográfica”, isto é, o período no qual a PEA é superior aos Inativos. Tendência de redução da população jovem Inativa, sim, mas com aumento da população idosa.

Evolução da Transição Demográfica no Brasil. A Janela (ou Bônus) Demográfica ainda está aberta. Fonte: site novaescola.org.br e IBGE

O que fazer com a população idosa Inativa? O Ministro das Finanças do Japão tinha uma respostas em 2013:

G1: Ministro do Japão diz que idosos devem se apressar para morrer

Finalmente, o argumento ambiental não se sustenta. Os países com menor crescimento vegetativo são os que mais agridem o meio ambiente. O Sul subdesenvolvido que concentram a maior parte da população mundial, mas contribui muito pouco com os danos ambientais.

A população de Londres, com 12% da população total do Reino Unido, exige uma pegada ecológica de 21 milhões de hectares ou, simplesmente, toda a terra produtiva do Reino Unido. Em Vancouver, no Canadá, constatou-se que a área exigida para manter o nível de vida da população corresponde a 174 vezes a área de sua própria jurisdição. Um habitante de uma cidade típica da América do Norte tem uma pegada ecológica de 461 hectares, enquanto na Índia a pegada ecológica per capita é de 45 hectares. Assim, o planeta sofre um impacto dez vezes maior quando nasce um bebê no primeiro mundo do que quando nasce um bebê na Índia, na China ou no Paquistão. Um malthusianismo cego, ainda hegemônico nas lides ambientalistas, está infelizmente muito mais preocupado com o controle da população na Índia do que com a injustiça ambiental que sustenta a injusta ordem de poder mundial. (Rogério Haesbaert da Costa e Carlos Walter Porto Gonçalves. A nova desordem mundial, 2005. Adaptado.)

Acompanhando a matriz malthusiana, sua teoria filha é tão insustentável racional e empiricamente. Assim como Malthus no século XVIII, a responsabilidade sobre as condições de vida de uma população é colocada sobre as questões demográficas com um apagamento ideológico das causas políticos e econômicas – nacionais ou mundiais – causadoras desses problemas. Mais uma vez, a culpa da pobreza recai sobre os próprios pobres: pessoas ou países.

Reformismo

Contra o entendimento neomalthusiano e em uma matriz marxista crítica e pautada no entendimento efetivo da realidade, é possível identificar como causa do aumento ou redução do crescimento vegetativo as condições de vida das populações, invertendo o pensamento neomalthusiano. As populações que se inserem em relações sociais tipicamente urbanas com rendas médias e altas buscam filhos mais tardiamente diminuindo a quantidade de filhos por mulher (taxa de fecundidade).

Não apenas foi isso que se observou nos países chamados desenvolvidos como a China tem uma “comprovação” dessa forma de entendimento da dinâmica de crescimento da população. Desde meados dos anos 2010 o gigante asiático relaxou as restrições à natalidade até a extinção completa da velha “política de filho único” dos anos 1980. Era esperado um aumento da taxa de fecundidade após o fim das restrições, mas, ao contrário, essa taxa continuou em queda. As mulheres chinesas, crescentemente urbanizadas no século XXI, não demanda filhos precocemente.

G1: Crescimento populacional da China desacelera apesar de fim da política do filho único

Política Demográfica

As teorias demográficas se notabilizam por serem uma forma de balizamento das políticas demográficas. Como sugerido na introdução, Estados autoritários ou com déficit de participação política popular produzem frequentemente politicas demográficas que afrontam condição básicas de Direitos Humanos e até os Direitos Fundamentais previstos em algumas Constituições nacionais. Aqui ficam misturados fatores econômicos, culturais e políticos em processos que geram os maiores prejuízos aos mais vulneráveis. Inclusive aqui no Brasil.

Nos anos 1990 foi estabelecida uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar casos de esterilização forçadas de mulheres. Casos do passado, mas que se repetem até hoje pelo mundo e por aqui.

The Intercept Brasil: ‘O CASO JANAÍNA ME LEMBROU QUE O BRASIL JÁ FEZ ESTERILIZAÇÃO EM MASSA – COM APOIO DOS EUA’

Le Monde Diplomatique Brasil: O crime da esterilização forçada

BBC Brasil: A chocante história das mulheres esterilizadas contra a vontade nos EUA

Público: Esterilizações forçadas continuam na Índia, depois da morte de 14 mulheres

Reforma das leis do trabalho

A eleição começou mesmo.

Fonte: revista Carta Capital

Isso ficou evidente ontem quando um telejornal de qualidade questionável fez estardalhaço sobre postagens nas redes sociais de Lula e de Hoffmann sobre a reforma trabalhista implementada na Espanha e a necessidade de revisão da catastrófica reforma implementada por um governo sem legitimidade, governo Temer.

Em primeiro lugar, o jornalismo. Para não apenas adjetivar (“qualidade questionável”), vamos ao contexto e aos fatos. Trata-se de um jornalismo (CNN 360) de “lacração”, uma busca incessante pelo “furo” e pelos bastidores que, frequentemente, coloca em risco a qualidade e até a veracidade da notícia. Isso ficou evidente no ano passado quando um entrevistador do telejornal teve que ouvir ao vivo do diretor do Butantã, Dimas Covas, algo como “você tem que se informar melhor”. A CNN tinha que fazer uma revisão imediata desse formato de telejornal ao ouvir isso, mas não fez. E ele segue na sua sanha lacradora, jornalismo histriônico que acredita que o telespectador gosta de estar em uma montanha-russa. Não gosta.

Ontem foi a vez da reforma trabalhista. Uma iniciativa para repercutir, nos últimos segundos do telejornal, as falas de políticos e autoridades acerca da reforma trabalhista na Espanha (secundariamente) e as falas de Lula e Hoffmann. Como não havia tempo – e duvido que todos os envolvidos tinham lido mais detidamente a reforma espanhola – vieram com os chavões de sempre: “o mercado”, “não pode quebrar contrato”, “causa insegurança”…

Fonte: publico.es

Como escrevi acima, a atual condição do trabalho, fruto de uma reforma trabalhista de grande profundidade, foi aprovada em governo Temer. Um governo que resultou do que boa parte da sociedade chama de golpe de Estado. Um governo com alguns dos índices de aprovação mais baixos da história. E uma reforma que fragilizou como nunca o trabalho frente ao capital. Claro que o discurso era de geração de emprego e renda para o trabalhador tornando mais baratos os custos do trabalho para o empregador. Discurso tão vazio.

Primeiro, a contradição. Como a redução de custos do trabalho para o empregador pode aumentar a renda do trabalho? Os neoliberais de plantão dirão que a mágica da concorrência de mercado resolverá. Mas quase dois anos de reforma trabalhista e achatamento do emprego e da renda desde o governo Temer e até o início da pandemia atestam o contrário.

Além disso, o trabalhador brasileiro já é extremamente barato. Basta comparar a remuneração do capital frente à renda do trabalho. Nos gráficos abaixo, Nogueira trabalhou dados comparativos da era neoliberal FHC com os governos Lula-Dilma. Ainda não chegou ao desmonte do trabalho da reforma de Temer.

Fonte: Blog Cidadania & Cultura
Fernando Nogueira da Costa

Isso se desdobra em problemas mais ou menos evidentes.

O trabalhador sem renda não tem condições dignas de vida. No Brasil, excetuando-se o Auxílio-Emergencial, a concentração da renda com mais famílias em situação de Insegurança Alimentar em algum grau (leve, moderada ou grave). Esse trabalhador que não tem o que comer também não pode consumir outros bens e serviços, principalmente em projetos de longo prazo (financiamento de longo prazo). Não é um problema apenas social, é um problema econômico.

Com a renda reduzida do trabalho o mercado fica deprimido inibindo o investimento do capital. Trata-se, portanto, de uma reforma trabalhista que se coloca como fator cíclico da crise, isto é, acentua a situação de crise da economia prejudicando a atividade produtiva. É só olhar para o nível de atividade econômicas nos últimos anos. A reforma trabalhista tem sua parcela de culpa.

Mas se houve prejuízos para a atividade econômica, porque o capital continua apoiando essas medidas? Para responder a isso é preciso olhar as frações do capital e sua relação com o poder.

Desde o dono da padaria da esquina até o pequeno industrial amargam problemas nos últimos anos. Mas e quanto o setor extrativista (Vale), o agronegócio e o setor financeiro? Esses são os donos do poder.

Claro que economia é complexa, não é unifatorial. Não basta mexer na questão trabalhista para resolver magicamente tudo. Mas a questão trabalhista é uma peça de resolução dos graves problemas que a sanha neoliberal, aliada ao golpismo e à extrema direita, nos colocou nos últimos anos.

Seguem dois artigos para entender melhor a reforma trabalhista na Espanha e o caminho que precisamos seguir por aqui.

Carta Capital: Citada por Lula, revisão de reforma trabalhista divide a esquerda na Espanha; entenda a discussão

Publico: No es solo una reforma laboral

Quem ganha com a caça esportiva?

O PL 5544/2020, de autoria de Nilson F. Stainsack (PP-SC), buscava regulamentar “a prática da caça esportiva de animais no Brasil, envolvendo atos de perseguição, captura e abate” (site da Câmara dos Deputados).

O Projeto de Lei “buscava” porque foi retirado da pauta pela pressão da sociedade. Foi retirado da pauta, mas não saiu do radar. É por isso que a atenção ao tema é fundamental.

A (anti)ética da caça

O primeiro aspecto fundamental é a insustentabilidade ética de um projeto de caça esportiva. Como é possível pensar em regulamentação de algo que gera sofrimento e morte apenas para o prazer do dito caçador?

fonte: Instagram: @astirasdocaos

O processo gera sofrimento extremo para o animal em caso de abate. Caso contrário, o animal pode sofrer por tempo indeterminado com o ferimento. Se for fêmea com cria, a prole está condenada. Mas não é só o alvo da caça que sofre. Segundo o jornal O Tempo “Tyson tem 2 anos e meio e é o que caçadores chamam de “cão de agarre”. Da raça dogo argentino, o cachorro já está aposentado há meses e exibe cicatrizes adquiridas em conflitos com javalis. Ele foi o último cão de agarre da equipe de caçadores autorizados de Araxá, que mantém um canil com 84 cães. “As fêmeas de javali ficam furiosas e detonam os cachorros. É um massacre”, diz Sheila Moura, da Sociedade Educacional Fala Bicho.” (Caça ao javali é questionada)

A reportagem de O Tempo é de 2016. Em 2019 o IBAMA “regulamentou” o uso de cães na caça aos javalis. Segundo o site oeco.org.br, “o uso de cães é válido, “sendo vedada a prática de quaisquer maus-tratos aos animais, devendo o abate ser de forma rápida, sem que provoque o sofrimento desnecessários aos animais”. Os cães deverão portar um colete peitoral, com identificação vinculada ao responsável, que deverá portar o atestado de saúde dos animais emitido por médico veterinário e a carteira de vacinação devidamente atualizada. Caso a exigência não for cumprida, o responsável poderá ser responsabilizado de acordo com os termos da Lei de Crimes Ambientais.” (Ibama regulamenta uso de cães para a caça de javalis). Não acredito que o coletinho vai impedir que o cão sofra com as mordidas e as presas do javali…

Mas sempre há o argumento de “defesa do pobre e dos povos tradicionais”. Afinal, a caça é uma prática usual de pobres populações em áreas rurais ermas do país e de povos originários. Claro que é, mas as atuais iniciativas buscam a regulamentação do turismo de caça, da caça esportiva, nada mais distante das práticas de camponeses e povos originários.

Finalmente, vem sempre o recurso de levar o argumento ao extremo: se for para ser contra a caça, vamos acabar com a pecuária, com os abatedouros e demais partes da cadeia produtiva da carne. A isso eu respondo, ótimo! Subi um artigo aqui no Geovest que procura mostrar como a agroindústria da carne é devastadora em termos ambientais e para a Segurança Alimentar. (Destruindo a natureza e gerando fome em meio ao desperdício)

Claro que o problema não é apenas ético e ambiental, é político.

Interesses envolvidos

fonte: Instagram: @desenhosdonando

A caça esportiva e o tão falado problema do javali são formas de difusão de armas de fogo. Há vários setores da sociedade, desde a indústria de armas, passando pelos importadores e outros setores correlatos (clubes de tiro, por exemplo) que tem muito a ganhar com isso. Os riscos, entretanto, ficam camuflados.

O Estado tem baixa capacidade de controle sobre regiões rurais no Brasil, especialmente no Nordeste e Amazônia, mas também em partes do Centro-Sul como Mato Grosso do Sul, Oeste do Paraná e São Paulo, Triângulo Mineiro e sul de Goiás. A violência é intensa.

Reportes Brasil (2007): Prefeito de Unaí denunciado pelo assassinato de quatro funcionários do Ministério do Trabalho e Emprego

G1 (2018): Chacina de Unaí: TRF anula pena de ex-prefeito Antério Mânica

Sob a desculpa da “caça”, mais armas vão para o campo colocando em risco lideranças sociais e ambientais. As assimetrias de poder, hoje brutais, podem ser ampliadas. Além da facilitação da formação de milícias.

Isso fica mais evidente na medida em que há denúncias bastante fortes da produção do problema pelos próprios eventuais caçadores. A velocidade de espalhamento dos javalis no Brasil é significativa apontando para a possibilidade de a espécie estar sendo introduzida numa região para justificar a difusão das práticas de caça.

Trata-se, portanto, de um problema sério. A caça como esporte parece ser uma prática insustentável. O controle de animais invasores é um problema complexo que exige uma discussão ampla na sociedade e a ação do poder público em múltiplas frentes. Não é com liberação de caça e fuzis que o problema some magicamente.

Para mais, seguem dois vídeos: reportagem do Fantástico da Rede Globo e um programa Greg News.

Globo: Caça ao javali vira pretexto para grupos se armarem

Destruindo a natureza e gerando fome em meio ao desperdício

Só os mais obtusos ainda não se deram conta do impacto da agroindústria no meio ambiente, nas relações sociais e na saúde pública. Mas até para esses a coisa vai se tornar mais evidente.

O ambientalismo é um vetor político que veio há tempos para ficar. Basta olhar o crescimento dos “verdes” no Parlamento Europeu ou no próximo governo da Alemanha. Nos EUA o partido Democrata tem setores fortemente ligados ao ambientalismo. O resultado disso já começa a chegar na imprensa e, eventualmente, nos lucros das grandes empresas e na conta dos políticos lenientes com a destruição ambiental.

BBC Brasil: Qual o impacto do boicote de supermercados europeus à carne brasileira?

Protesto em defesa da Amazônia e contra as mudanças climáticas na embaixada brasileira em Londres em 2019
Protesto em defesa da Amazônia e contra as mudanças climáticas na embaixada brasileira em Londres em 2019. A expressão ‘we got beef’ no cartaz é um trocadilho, pois em inglês também significa ter um problema com alguém. Fonte: BBC Brasil

Isso vai dar resultado nas relações comerciais e políticas mundiais, mas ainda vai demorar e é muito pouco. O modelo está estruturalmente errado. Errado para proteção ambiental e para a alimentação da população (Segurança Alimentar).

O circuito longo de produção agropecuária que utiliza insumos da indústria química e exige transportes em escala mundial não tem como ser “sustentável”. Entre outros, há o óbvio problema da utilização de área e recursos significativos em uma agricultura voltada para alimentação de animais da indústria da carne.

Observatório do Clima: Cadê a floresta que estava aqui? (O gado comeu)

Fechando o círculo surreal, a indústria mundial da carne gera desperdício significativo. No início da terceira década do século XXI, ao invés de estarmos mais próximos da erradicação da fome no mundo, vivemos em um mundo com mais pessoas em Insegurança Alimentar, inclusive no chamado “mundo desenvolvido”.

Alljazeera: COP out no more: It is time to address livestock production waste

Trata-se de um modelo de produção agroindustrial de sucesso. Sucesso para os acionistas das grandes empresas do setor. Mas que evidentemente produz mais fome e esgota os recursos naturais. Não há reforma possível nesse modelo, ele tem que ser abandonado. É por isso que o tema tem forte relevância geopolítica. São grandes empresas que tem capacidade de lobby sobre os governos de países centrais e grandes instituições multilaterais mundiais (como o Banco Mundial). Sem organização política na sociedade civil e com capacidade de mobilização na política internacional, não há mudança possível. Trabalho de formiguinha acalenta a alma e o ego de quem faz, mas não munda o quadro.

Neoliberalismo, estrema direita e religião

Neoliberalismo, extrema direita e religião. Não parecem contraditórios, há elementos diversos em cada uma dessas ideologias que podem ser combinados ou rearranjados potencializando sistematicamente o todo. Isso se evidencia em uma tendência de formação de um Estado totalitário com forma de democracia e que, apesar de laico, é confessional. Um Estado que contribui para conservar e reforçar esses elementos ligados ao individualismo, ao competitivismo e à noção de progresso e aperfeiçoamento consideradas em si mesmo, absolutas, sem qualquer referencial. Isso está presente no artigo de hoje do UOL:

UOL: ‘Religião, direito e neoliberalismo’: Congresso glorifica Mendonça no STF

Dardot e Laval já haviam ensinado que o neoliberalismo não se comporta como uma forma externa e objetivada de controle social. Se assim, fosse, fracassaria diante das mazelas que essa forma de (des)organização da economia produz: concentração de renda, desemprego, redução da economia real frente ao setor financeiro especulativo, pobreza, entre outros problemas. O neoliberalismo precisa tomar corações e mentes.

Considerado uma racionalidade governamental, e não uma doutrina mais ou menos heteróclita, o neoliberalismo é precisamente o desenvolvimento da lógica do mercado como lógica normativa generalizada, desde o Estado até o mais íntimo da subjetividade (Dardot, Pierre; Laval, Christian. A nova razão do mundo . Boitempo Editorial. Edição do Kindle.)

Na antológica ilustração de Safatle acerca do processo, basta lembrar o nome da revista voltada ao amplo público dito “empreendedor”: Você S.A. A pessoa tomada como empresa, a pessoa que organiza sua vida segundo a lógica empresarial desde os termos que usa na referência a si (estou melhorando a “gestão do meu tempo”; estou “investindo em mim”) até seu direcionamento afetivo ou profissional, sempre voltado para acumulação em termos de Capital Econômico ou suas outras modalidades (Capital Simbólico) no entendimento de Bourdieu.

Revista Você S/A - Abril 2020 eBook : Vários autores: Amazon.com.br: Livros

“Como se comunicar melhor”. A maneira como a pessoa faz pode não estar errada. O paradigma não é do acerto ou erro, é o da melhoria constante. Isso se reproduz na lógica da medicina e da psicologia e psiquiatria com os procedimentos ou drogas de aprimoramento da pessoa. Fazer uma terapia qualquer deixou de ser algo necessário para superar uma doença, é algo que se faz para melhorar. “Melhorar” é outro termo em si, sem referencial, tomado absolutamente como sendo bom e voltado para o bem.

a mudança descrita da medicina moderna para medicina contemporânea, a diluição da noção de doença e a intensificação das práticas médicas de aprimoramento, parecem obedecer à mesma estrutura que essa mudança vista no mundo empresarial. Aqui não existe mais o braço de ferro entre norma e desvio, saúde doença, trabalho e anseios pessoais etc. Há, antes, uma busca de performance e autossuperação através das tecnologias disponíveis, em que podemos ser sempre uma versão melhor de nós mesmos: mais saudáveis, mais dispostos, mais inteligentes ou criativos. (Safatle, Vladimir; Junior, Nelson da Silva; Dunker, Christian. Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico (p. 182). Autêntica Editora. Edição do Kindle.)

A religião, tanto quanto a psiquiatria e a psicologia do “aperfeiçoamento”, entra no processo de formação de subjetividades neoliberais-empresariais. Isso remete á Teologia do Domínio que levou a mais que a expansão do neopentecostalismo no Brasil, levou à substituição das religiões de matriz africana nas periferias pobres e negras do Rio de Janeiro pelas igrejas evangélicas.

Extra: Traficantes evangélicos fecham pacto com milícia para expandir ‘Complexo de Israel’

Terra: Traficantes evangélicos causam terror a religiões africanas

Bandeira de Israel em Vigário Geral
Bandeira de Israel em Vigário Geral

É claro que o maior alinhamento do neopentecostalismo atual com o neoliberalismo se faz no contexto da Teologia da Prosperidade:

A religiosidade neopentecostal em sua narrativa mágica dissemina e propaga ideologicamente que a única solução possível é pela via da inserção exasperada ao capitalismo. A única modalidade possível de resposta está na submissão profunda ao algoz econômico e em nome de sua propagação travestida de “prosperidade”. Com isso suspende-se a divisão católica entre o sagrado e o mundano. O divino está em toda parte e em qualquer hora e lugar, sem intermediários privilegiados. Isso cria um empuxo brutal de individualização, como processo de leitura do cotidiano, associado com a direção comunitária, com baixa institucionalidade, apontando regras gerais. O pastor neopentecostal é gestor de testemunhos, mais do que um intérprete de um texto sagrado. Por isso ele não precisa de formação qualificada, seminários ou disputas teológicas. Enquanto o catolicismo parecia se especializar na fé universitária qualificada, com a reapropriação das Pontifícias Universidades Católicas pelo país afora, o neopentecostalismo apostava no livre empreendimento do saber teológico. Isso fermentava o espírito do criacionismo e o confronto de autoridades como mera questão de opinião e de potência ou extensão de membresias. [grifos meus] (Safatle, Vladimir; Junior, Nelson da Silva; Dunker, Christian. Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico (p. 271). Autêntica Editora. Edição do Kindle.)

Lembrando que não se trata apenas do atual neopentecostalismo que faz essa apologia ao aperfeiçoamento medido com base em valores materiais-capitalistas. A sanha kardecista de aprimoramento em sucessivas encarnações também se alinha ao ideal neoliberal de aperfeiçoamento. Destacaria, entretanto, a passagem final do excerto acima. Isso produz a ligação com a última parte da introdução desta reflexão: a extrema direita. Como nos ensina Humberto Eco:

O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si e, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão.

Da declaração atribuída a Goebbels (“Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”) ao uso frequente de expressões como “porcos intelectuais”, “cabeças-ocas”, “esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais. (Eco, Umberto. O fascismo eterno . Record. Edição do Kindle.)

E assim se fecha o cerco. Cerco formado por uma sociedade neoliberal que molda um Estado neoliberal. Um Estado que tem forma democrática, mas essência cada vez mais próxima de fascismo na sua violência e intransigência; um Estado laico, mas cada vez mais povoado por gentes religiosas com privilégios e cargos para essas gentes e suas instituições. E não mudamos. Não mudamos porque as subjetividades de massas de gentes já foram tomadas, gentes que não explicam as mazelas deste tempo porque não enxergam como problemas, enxergam como processos justos e legítimos.

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