Pensar por si: recurso escasso

Olá!

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“Pensar por si mesmo não é um dado primário alegremente disponível no ponto de partida, mas, sim, o resultado da dor e penúria de um esforço de pensamento, em que ao gozo e ao prazer de reconhecer e descobrir opõe-se o sentimento de traição; ao consenso, o sentimento da criação como transgressão.” (O reconhecimento do próximo: notas para pensar o ódio ao estrangeiro – Marcelo Viñar)

Já houve quem profetizasse que o fim da URSS e a difusão do capitalismo neoliberal resultariam em uma nova polarização política-ideológica-civilizacional: entre a direita capitalista e a extrema direita marcada pela intransigência e veiculadora do discurso do ódio. Esse tempo chegou.

Trata-se de um tempo de adjetivos e não de substantivos; de redução do debate frente ao ataque. Um tempo de não pensar. Diante do pensamento conservador, o padrão desviante é visto com ódio, ódio que leva ao não pensar, ao ataque com vista à eliminação, destruição física ou, ao menos, simbólica. Hoje as razões que levam a pessoa a ser vista como outro desviante, objeto de toda raiva, são cada vez maiores.

A lista é inacreditável e, aparentemente, interminável: a terra é plana, a evolução não existe, homem e mulher são dados no nascimento, políticas distributivas de renda são coisas de comunistas, saúde pública é coisa de nazista… Para que eu não seja acusado de contradição, todas as coisas listadas acima são passíveis de debates. Mas não se debate com ideias pré-concebidas tomadas como absolutas com vistas à “vitória” sobre o Outro. Parafraseando Arendt , no debate se mostra ao Outro todas as “armas” que serão usadas. Afinal, a verdade – dialeticamente – não está dada a um ou a outro: está no “meio”, numa terceira coisa a ser descoberta pelo debatedores.

Para que esses debatedores produtores de ideias possam existir é necessária a doação. Doação de si ao Outro e reciprocidade. Afinal, o que eu sei pode ser falho, parcial, contraditório. Pode, apenas, contribuir com o discurso alheio na produção da verdade. Ou, menos que isso, eu posso apenas estar errado na minha abordagem. Tenho, portanto, que reconhecer o erro, voltar à última encruzilhada e tomar outro caminho. Mas, como sugeriu Fromm, talvez o santo imaculado não conseguisse trilhar o caminho do pecador arrependido. Afinal, “minha verdade” nunca está errada.

Ninguém é mais avesso à doação que o inseguro. Quem tem medo de perder não abre mão de qualquer coisa. A abnegação, necessária à doação, é ilustrada nesta passagem do poema “SE”:

(…)

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;

(…)

Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais — tu serás um homem, ó meu filho! (Kipling)

[Um mundo cheio de certeza e carente de homens]

Mas como uma fala, uma ideia, uma postura diante da realidade pode gerar “perda” em alguém?

As ideias pré-concebidas do parágrafo anterior não são (como ensina a psicanálise) da pessoa. São do grupo do qual a pessoa acha que faz parte. O racismo se manifesta em uma pessoa que acredita ser do grupo “branco” em oposição às pessoas negras. Quanto maior o ódio ao negro, maior a sensação de pertencimento ao grupo “branco” do qual a pessoa acha que faz parte. Quem tem medo de perder o grupo do qual acha que faz parte é sempre violento frente aos que afrontam o grupo (na visão do racista). A mesma sensação da criança frente ao abandono dos pais, do adolescente rejeitado pelo grupo.

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A impressão que se tem é de uma sociedade formada por crianças e adolescentes imaturos, vulneráveis, inseguros e violentos, muito violentos.

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Hoje se faz o elogio à competitividade e à individualidade. O problema é que, para alguém ganhar, alguém tem que perder. Estabilidade no emprego, na família, na religião, nos valores… Não há mais. No que alguns apologistas chamam de Pós-Modernidade a marca é a fluidez. Como ter segurança neste contexto? Ao contrário, a percepção de insegurança lança mais e mais pessoas a se agarrarem ao gelo fino que flutua na água fria: ufanismo, fundamentalismo religioso. São “crianças” e “adolescentes” de 20 a 70 anos que se “diferenciam” como racistas, xenófobos, homofóbicos… Mas se igualam na insegurança e violência.

É neste contexto que introduzo Bergoglio. Colocando a mim na gênese do preconceito, tive uma primeira impressão muito ruim do novo papa Francisco. Entendi, entretanto, que se tratava de um ranço formado em mim pela herança dos dois últimos papas, isto é, tive que reconhecer que estava errado na minha opinião primeira. Se até agora Francisco não produziu nada de concreto em mudanças na Igreja, o seu discurso se adéqua aos ideais humanistas quanto à relação da Igreja com homossexuais, casais separados, problemas ambientais, acumulação material ilimitada, entre outros. Talvez esse seja o problema.

 

 

Há resistências à Francisco desde o início do seu papado e crescentes até a atualidade. Não sou conhecedor profundo da doutrina católica ou dos meandros políticos do Vaticano, mas, até agora, o que eu li de críticas a Francisco se caracterizam por falas sem substância, pautadas pela iniciativa de ataque àquele que se comporta de forma diferente. Frequentes críticas despropositadas, oriundas inclusive do meio católico, direcionadas como discurso de ódio ao Papa. Se as posturas críticas e humanistas do Papa são objeto de ódio, o que não dizer de nós, desconhecidos cidadãos?

Abraços a todos e boa sorte!

Trabalho infantil e PNAD

Olá!

Relatório PNAD Contínua 2016 publicado hoje no site do IBGE sobre trabalho infantil. Alguns trechos:

Pelo menos 54,4% das crianças que trabalhavam estavam em situação de trabalho infantil, não permitida pela legislação

Dentre os ocupados de 14 ou 15 anos na posição de empregado, 89,5% não tinham carteira de trabalho assinada. Já entre os empregados de 16 ou 17 anos, o percentual dos que não tinham registro em carteira era de 70,8%.

Dessa forma, a população infantil em ocupação não permitida é representada pelo somatório das crianças de 5 a 13 anos de idade ocupadas (190 mil pessoas), o contingente de 14 ou 15 anos ocupados que não obedeceram às condições legais de jovem aprendiz (196 mil pessoas), e os de 16 ou 17 anos sem registro formal (612 mil pessoas). Esse contingente chegava a 998 mil pessoas em 2016, ou 54,4% dos ocupados no grupo etário de 5 a 17 anos de idade.

Outras condições que caracterizam o trabalho infantil, como a realização de atividades insalubres ou perigosas (mesmo que o trabalhador seja registrado) e o treinamento devido ao jovem aprendiz, não são captadas pela pesquisa e, portanto, não foram contabilizadas no percentual referente à população infantil em ocupação não permitida.

(…)

Metade (50,2%) das crianças realizam tarefas domésticas

Em relação a outras formas de trabalho, em 2016, aproximadamente 716 mil crianças de 5 a 17 anos trabalhavam na produção para o próprio consumo, o equivalente a 1,8% do total, e 20,1 milhões realizavam trabalho com cuidados de pessoas e afazeres domésticos (50,2%).

Das que trabalhavam para o próprio consumo, 91,6% estudavam, e, das que realizavam afazeres domésticos, 95,1% eram estudantes. Estes resultados sugerem que apesar das crianças terem realizado estas tarefas fora da produção econômica, isso não impediu que a grande maioria delas se mantivessem na escola.

A região Norte apresentou o maior percentual de crianças realizando trabalho na produção para o próprio consumo (3,4%), seguida pela região Nordeste (2,5%). Já em relação às tarefas domésticas, as regiões Sul (60,5%) e Centro-Oeste (55,1%) se destacaram.

A média de horas semanais destinadas a estes trabalhos (produção para o próprio consumo, afazeres domésticos e cuidados com pessoas) por crianças de 5 a 17 anos foi de 8,6 horas, sendo 7,5 horas para produção para o próprio consumo e 8,4 horas para cuidados de pessoas e afazeres domésticos.

Quando considerado apenas as horas destinadas a afazeres domésticos, verificou-se maior dedicação por parte das meninas (9,6 horas) do que pelos meninos (6,9 horas).

Além disso, 72,3% das crianças ocupadas também realizavam trabalho na produção para o próprio consumo e trabalho em cuidados de pessoas ou afazeres domésticos.

Valem algumas reflexões:

Primeiro, é claro há irregularidades evidenciadas pela pesquisa frente ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Em seu artigo 60 o ECA estabelece que “É proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade, salvo na condição de aprendiz”.

Sem qualquer tipo de questionamento ao artigo 60 do ECA, como é possível interpretar as ilegalidades evidenciadas pela pesquisa PNAD?

Nos últimos anos há forte retração da atividade econômica com mais famílias em condições financeiras que se encontram no limiar da dignidade (ou estão, há muito, abaixo da “dignidade”). A segurança material da família depende, nesse caso, de mais entes exercendo atividade remunerada ou contribuindo com a atividade de subsistência material ou financeira da família. A correção deste problema para adequação ao ECA passa pela retomada do crescimento econômico e empregabilidade com trabalho de boa qualidade (direitos de seguridade preservados). As medidas econômicas restritivas da atualidade seguem na direção oposta. Isso é reforçado pela Reforma Trabalhista que precariza a condição do trabalho frente ao capital.

Outra solução seria a intensificação de programas de distribuição direta de renda que, ao mesmo tempo, exigem, entre outras coisas, a criança ou adolescente matriculado na escola, isto é, Bolsa Família. Da mesma forma como o trabalho está precarizado, os programas sociais do governo sofrem sucessivas dilapidações.

Pensando em aspectos sociais, aonde estão as creches e escolas de Ensino Fundamental que evitam a indesejável situação de “o mais velho cuida dos mais novos”? Sem esse recurso público famílias de baixa renda na qual os adultos precisam exercer atividade extra domiciliar deixam os filhos em situação irregular frente ao ECA e de alta periculosidade.

Até mesmo a organização do espaço urbano conta para o problema do trabalho infantil. Custos elevados de deslocamentos de famílias moradoras das periferias aumentam a necessidade de renda familiar. A reorganização do espaço urbano é fundamental para melhores condições de vida das famílias, das crianças e adolescentes.

Finalmente, a necessidade de modernização para superação de tradições ligadas ao uso de crianças no trabalho rural. Porém, a palavra modernizar deve aqui significar a regularização da vida social e não mera introdução do tempo do capital no campo, recorrente nas últimas décadas, acentuador da desarticulação das relações no campo (familiares, trabalhistas) e dos problemas consequentes nas cidades.

Escrevo tudo isso porque o primeiro artigo que eu li hoje acerca do tema da margem para, muito facilmente, ser formada culpa sobre as famílias cujos filhos estão trabalhando em desacordo com o ECA. Claro que a pesquisa PNAD não afirma isso e a adequação ao ECA é fundamental, mas cabe refletir que os problemas geradores desta contradição são muito mais profundos, amarrados às estruturas sociais formadas em nossa história. A pesquisa PNAD é, apenas, mais uma reforçadora da exigência de a sociedade pensar os problemas da sua formação e as profundas mudanças que ela exige.

Abraço a todos e boa sorte!

Como a União Soviética influenciou o surgimento e a expansão do radicalismo islâmico, ou o dia do mau jornalismo da BBC Brasil

Olá!

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A BBC Brasil também tem seu dia de revista Veja. A manchete acima (Como a União Soviética influenciou o surgimento e a expansão do radicalismo islâmico) exige um artigo que aponte a relação entre a velha União soviética e a formação do terrorismo islâmico atual. Mas, como se diria vulgarmente, “só que não…”.

Em primeiro lugar, há repetidas sugestões inconclusas no texto. Vejamos:

Alguns autores argumentam que essa prática religiosa não oficial, somada à rigidez do governo, levou à radicalização dos muçulmanos soviéticos. No entanto, há dúvidas sobre esse ponto. [negrito meu]

“Se você soma todos os países pós-soviéticos, você verá que eles enviaram o segundo maior número de militantes para o EI (o autodenominado grupo Estado Islâmico) depois da Tunísia. No entanto, acho que há particularidades desse fenômeno que são contraditórias com o período soviético“, diz o professor Nunan. [negrito meu]

Ao que parece, em várias oportunidades nas quais serão evidenciadas as relações entre a velha URSS e a formação do terrorismo islâmico, há controvérsias…

Além disso, cereja do bolo, a visão passada pelo autor da guerra civil no Afeganistão nos anos 1980. Segundo o autor, a reação dos nativos afegãos contra a ocupação soviética “fomentou” o fundamentalismo islâmico. Mas como isso ocorreu? Desde o nada?

É sabido do apoio americano e saudita aos rebeldes afegãos contra o governo comunista deste país nos anos 1980. O próprio texto cita isso e nem precisava. Afinal, o mundo ficou sabendo através do patético Rambo III do apoio americano aos insurgentes. Vale lembrar que o filme termina com uma dedicatória ao “valente povo afegão”, o mesmo que a imprensa americana chamaria de louco incivilizado Talibã nos anos 1990.

O apoio dos EUA e da Arábia Saudita na formação de madrasas (escolas confessionais do islã, uma instituição antiquíssima) no Paquistão foi fundamental para constituição de uma ideologia anti-soviética (fundamentalismo sunita) além de viabilizar o fornecimento a essas pessoas de treinamento, de recursos financeiros, logísticos e militares. É mais que sabido que o Talibã anti-americano dos anos 1990 foi mais um blowback da política externa dos Estados Unidos: interferir em uma área conflituosa para obter resultados que se mostram adversos com o tempo.

Em resumo, é fácil chutar cachorro morto. Quem “defenderia” a URSS hoje se até Putin tem desavenças com o Partido Comunista da Rússia? Além disso, é melhor para a geopolítica americana (e britânica, sua assecla europeia) que haja outros responsáveis pela difusão do fundamentalismo islâmico. Entretanto, e pensando de forma muita prática e imediatista, os vestibulandos não podem se dar ao luxo de análises históricas enviesadas por necessidades geopolíticas contemporâneas em ano de aniversário de um século de Revolução Russa. Ao menos para quem vai prestar vestibular, não é hora de erros grosseiros como este.

Abraços a todos e boa sorte!

Em tempo: Carniça atrai urubu: Em uma rápida pesquisa no Google antes de postar o texto já vi que UOL e G1 republicaram o texto da BBC. Os macacos de imitação brasileiros não podiam ficar de fora dessa…

algo sobre o vestibular… UFPR

Olá!

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Apenas elogios para a prova de Geografia da UFPR. Vestibular com avaliação em duas fases com prova de conhecimentos gerais envolvendo questões de Geografia de múltipla escolha e prova de conhecimentos específicos com questões dissertativas. Segue um relatório das provas deste vestibular:

relatorio UFPR

Para quem se interessar, o edital da vestibular 2018: edital 2018

Para se aclimatar à prova, seguem mais quatro arquivos com as provas de conhecimentos gerais e conhecimentos específicos (geografia) dos dois últimos anos.

CE 07122015

CG 08112015

CE 26112016

CG 23102016

Espero que isso possa ajudar!

Abraços e boa sorte a todos!

Vai levando

Olá!

A Justiça Federal do Distrito Federal decidiu, liminar e parcialmente, a favor de Rozângela Alves Justino (segue a Ata da decisão no pdf abaixo) acerca da prestação de tratamento com apoio psicológico para pessoas que querem abdicar do homoerotismo em favor do heteroerotismo.

A questão tornou-se especialmente polêmica após o Conselho Federal de Psicologia ter baixado resolução (segue a Resolução no pdf abaixo) que veta este procedimento junto aos psicólogos brasileiros, Resolução em alinhamento com a posição da Organização Mundial da Saúde.

A decisão do juiz Waldemar Cláudio de Carvalho diz basear-se na melhor hermenêutica jurídica. Para se formar opinião, vale uma breve leitura acerca de hermenêutica jurídica no texto introdutório de Chiara Michelle Ramos Moura da Silva: Noções Introdutórias de Hermenêutica Jurídica Clássica.

Na sequência, uma apresentação acerca de Rozângela A. Justino, fundamental para se chegar a conclusão da adequação (ou não!) da decisão judicial. Para tanto (e acompanhando um tendência da justiça brasileira de obter informações na imprensa), segue um artigo do jornal Folha de São Paulo com depoimentos de Rozângela A. Justino e de outros psicólogos: Psicóloga que diz “curar” gay vai a julgamento em conselho.

Ainda para formar opinião acerca do parecer no Conselho Federal de Psicologia vetando a chamada vulgarmente “cura gay”, segue um vídeo com depoimento da própria Rozângela A. Justino.

Finalmente, seguem abaixo os arquivos pdf com o parecer do Conselho Federal de Psicologia sobre a dita reorientação sexual e a decisão do Juiz Carvalho:

Resolução CFP 01-1999

Ata de Audiência

Ao final, para relaxar (?!), “Vamos Levando”…

Abraços e boa sorte a todos!

Mais uma vítima da miopia atual: pensamento crítico ambientalista

Olá!

Já encontramos várias vítimas de um tempo cego. Já sofreram ataques “A Origem das Espécies”, “O Capital”, “A Teoria Geral”, entre outros que foram objeto de linchamento pela turba neoconservadora. Alguns morreram, outros estão convalescentes e alguns ainda estão naquilo que nunca deveria ter sido uma luta.

Afinal, vive-se um tempo no qual pensar por si vem acompanhado por um xingamento: COMUNISTA! Assim, pensar cientificamente a diversidade e evolução das espécies é ser comunista; pensar a organização sociedade-Estado com vistas ao Bem-Estar Social é ser comunista; e, é claro, ser comunista é ser… comunista!

Infelizmente o pensamento neoconservador brasileiro tem se apropriado do ambientalismo, especialmente a polêmica criada (falseadora) entre “aquecimentistas” e “céticos”. Pensar o processo de interferência da sociedade sobre o clima está se tornando coisa de comunista.

Não penso “ciência” de modo purista ou como algo que produz verdades imunes às polêmicas. Isso é inerente ao dogma, não à ciência. Além disso, “ciência” é feita por homens em sociedade e todas as características e contradições sociais acabam embutidas na produção científica: financiamento por institutos de pesquisa, interesses de corporações, tendência pessoais (políticas, ideológicas, religiosas) do pesquisador. Há, entretanto, alguns limites a partir dos quais se evidencia instrumentalização da suposta produção de ciência que, na verdade, está mais para promoção pessoal ou de necessidades políticas. É o que vem acontecendo com a ideia de “aquecimento global antropogênico”.

Há, é claro, muito exagero acerca do tema: desde o hollywoodiano “o dia depois de amanhã” até artigos (jornalísticos, de divulgação científica ou especializados) que inflacionam o tema. Há exageros e pirotecnia em conferências entre países (que se mostram muito aquém das necessidades). Mas quando os ditos “céticos” acerca do aquecimento global antropogênico no Brasil são convidados a discursar em meios de imprensa ligados ao agronegócio ou em blogs de notícias de caráter neoconservador, daí temos um problema.

Nesse contexto (e para aprofundar o tema) segue um artigo do site Direto da Ciência sobre a polêmica entre o divulgador de ciência Pirula e o intitulado “cético” Ricardo Augusto Felício. Não subo mais vídeos ou artigos pois o artigo do site Direto da Ciência é farto nestas citações.

Para o artigo, clique no link ao lado: Negacionismo do clima e também do desenvolvimento sustentável

Ao final do post, não resisto à já clássica entrevista de Felício no velho Programa do Jô. Diz o professor “cético” da USP que a “chuva é que causa a floresta e não a floresta que causa a chuva”. Está “correto”, mas é um pensamento simplista que desconsidera uma infinidade de variáveis que interagem na produção do clima e do ecossistema A cereja o bolo, entretanto, está no final. Diz o professor “cético” que “se você cortar toda a floresta amazônica, 20 anos depois está tudo lá de volta porque continua chovendo”. É de uma irresponsabilidade sem tamanho afirmar isso e não pensar na eliminação dos espécimes, da possibilidade (efetividade) de eliminação de espécies, na afronta ao modo de vida das populações indígenas e de outros Povos da Floresta. Segue a entrevista abaixo com a passagem acima por volta dos 18 minutos de entrevista.

Abraços a todos e boa sorte!

OCX: permanência das alternativas para um mundo multipolar.

Olá!

A fluidez do cenário atual ocorre em vários níveis. Aquilo que alguns chamam de pós-modernidade tem na velocidade e na obsolescência duas de suas caraterísticas essenciais. As formas de entendimento da realidade ficam velhas quando foram feitas na semana passada. No entendimento da organização política mundial isso não é diferente.

O mundo viveu mais de quatro décadas da chamada Guerra Fria. Claro que houve peculiaridades ao longo da segunda metade do século XX, evidentes nas diversas formas que os historiadores usam para periodizar esse tempo. Mas houve elementos comuns que dão margem ao óbvio, qual seja, nossa capacidade de denominar esse conjunto de fenômenos como “Guerra Fria”: bipolaridade entre EUA e URSS; dois sistemas econômico-político-ideológicos de organização da sociedade; corrida armamentista; propaganda política. O mundo de hoje, da velocidade dos processos, é difícil de ser denominado para além de “pós-Guerra Fria”.

Os anos 1990, com o fim da URSS, foram marcados por uma espécie de ensaio dos EUA na utilização do seus diferenciais econômico e militar para se colocarem como potência mundial unipolar. A Doutrina Bush de 2001 era a sistematização dessas iniciativas. A Crise Americana, a Crise Europeia, a contestação aos EUA por países como Irã e Coreia do Norte, os fracassos americanos no Iraque e no Afeganistão evidenciaram a incapacidade dos EUA organizarem o mundo como potência única.

No final dos anos 2000 a multipolaridade parecia ser a tendência mais forte. Afinal, o G20 ganhou importância frente ao velho G7 (ou G7+1 na época); o Brasil quitou sua dívida com o FMI que veio pedir mais recursos aos países “emergentes”; MERCOSUL, UNASUL, IBAS, APAS, ASA; e BRICS, com o acréscimo da República da África do Sul, com o Novo Banco de Desenvolvimento, com o Arranjo de Reservas. Mas quando a marca de um tempo é a mudança, nada é certo.

Em meados da década de 2010 houve perceptível redução do crescimento das economias da China e da Índia; a Rússia teve, além de redução do crescimento econômico, problemas internacionais, especialmente na Ucrânia; a Argentina, como boa parte da América Latina teve uma guinada econômica ortodoxa, sujeição ao deus-mercado e capachismo (eterna síndrome de vira-lata) frente aos EUA; o Brasil dispensa comentários.  Assim, vários projetos ou organizações do mundo “pobre” para contestação de uma ordem historicamente injusta começaram a fracassar. Vitória dos países “ricos”, aqueles que sempre ganham. Mas “ainda estão rolando os dados”.

Se alguns países pobres se mostraram mais frágeis no processo de inserção autônoma no cenário mundial (Brasil, Argentina, México, Coreia do Sul), outros buscaram reorganizar suas agendas e prioridades com vistas a permanência de um projeto nacional autônomo. É o caso de Rússia, China, Turquia, Índia.

Uma sigla ilustra essa perspectiva e merece nossa atenção: OCX (Organização para Cooperação de Xangai). Trata-se de um clube de países envolvendo como membros até a atualidade China, Rússia, Índia, Paquistão, Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Tajiquistão. Esses países reúnem um percentual significativo da população e do PIB do planeta, são dotados de recursos naturais essenciais (inclusive reservas de petróleo e gás natural), além de terem algumas das potências nucleares do planeta. A crescente cooperação e o acréscimo de novos países evidencia uma força respeitável para colocação dos seus problemas e demandas na agenda mundial. Finalmente, a forma de negociação externa desse bloco se orienta pelo Ganha-Ganha, diferente das recorrentes formas de imposição via exploração das potências do Norte sobre os países fracos do Sul.

Se BRICS, MERCOSUL e Brasil ficaram pela estrada, essas novas potências (ou nem tão novas para a Rússia) consertaram o carro na viagem, exigência de um tempo, e seguem para uma melhor colocação na política mundial.

Para ilustrar e aprofundar, algumas informações e textos:

Segue abaixo um infográfico antigo, de 2015, anterior ao ingresso pleno de países como a Índia e o Paquistão, mas que dão a dimensão desse clube:

O texto que segue é uma abrangente e didática explicação de Pepe Escobar sobre a OCX: Ocidente não sabe nem do cheiro do que a Eurásia está cozinhando.

Finalmente, esse último texto mostra a força da Organização tendo em vista um membro da OTAN e histórico pleiteante a membro da UE se dizer apto a ingressar como membro pleno da OCX: Se a UE não se decidir, Erdogan ameaça levar a Turquia para a Organização de Xangai.

Abraços a todos e boa sorte!