OCX: permanência das alternativas para um mundo multipolar.

Olá!

A fluidez do cenário atual ocorre em vários níveis. Aquilo que alguns chamam de pós-modernidade tem na velocidade e na obsolescência duas de suas caraterísticas essenciais. As formas de entendimento da realidade ficam velhas quando foram feitas na semana passada. No entendimento da organização política mundial isso não é diferente.

O mundo viveu mais de quatro décadas da chamada Guerra Fria. Claro que houve peculiaridades ao longo da segunda metade do século XX, evidentes nas diversas formas que os historiadores usam para periodizar esse tempo. Mas houve elementos comuns que dão margem ao óbvio, qual seja, nossa capacidade de denominar esse conjunto de fenômenos como “Guerra Fria”: bipolaridade entre EUA e URSS; dois sistemas econômico-político-ideológicos de organização da sociedade; corrida armamentista; propaganda política. O mundo de hoje, da velocidade dos processos, é difícil de ser denominado para além de “pós-Guerra Fria”.

Os anos 1990, com o fim da URSS, foram marcados por uma espécie de ensaio dos EUA na utilização do seus diferenciais econômico e militar para se colocarem como potência mundial unipolar. A Doutrina Bush de 2001 era a sistematização dessas iniciativas. A Crise Americana, a Crise Europeia, a contestação aos EUA por países como Irã e Coreia do Norte, os fracassos americanos no Iraque e no Afeganistão evidenciaram a incapacidade dos EUA organizarem o mundo como potência única.

No final dos anos 2000 a multipolaridade parecia ser a tendência mais forte. Afinal, o G20 ganhou importância frente ao velho G7 (ou G7+1 na época); o Brasil quitou sua dívida com o FMI que veio pedir mais recursos aos países “emergentes”; MERCOSUL, UNASUL, IBAS, APAS, ASA; e BRICS, com o acréscimo da República da África do Sul, com o Novo Banco de Desenvolvimento, com o Arranjo de Reservas. Mas quando a marca de um tempo é a mudança, nada é certo.

Em meados da década de 2010 houve perceptível redução do crescimento das economias da China e da Índia; a Rússia teve, além de redução do crescimento econômico, problemas internacionais, especialmente na Ucrânia; a Argentina, como boa parte da América Latina teve uma guinada econômica ortodoxa, sujeição ao deus-mercado e capachismo (eterna síndrome de vira-lata) frente aos EUA; o Brasil dispensa comentários.  Assim, vários projetos ou organizações do mundo “pobre” para contestação de uma ordem historicamente injusta começaram a fracassar. Vitória dos países “ricos”, aqueles que sempre ganham. Mas “ainda estão rolando os dados”.

Se alguns países pobres se mostraram mais frágeis no processo de inserção autônoma no cenário mundial (Brasil, Argentina, México, Coreia do Sul), outros buscaram reorganizar suas agendas e prioridades com vistas a permanência de um projeto nacional autônomo. É o caso de Rússia, China, Turquia, Índia.

Uma sigla ilustra essa perspectiva e merece nossa atenção: OCX (Organização para Cooperação de Xangai). Trata-se de um clube de países envolvendo como membros até a atualidade China, Rússia, Índia, Paquistão, Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Tajiquistão. Esses países reúnem um percentual significativo da população e do PIB do planeta, são dotados de recursos naturais essenciais (inclusive reservas de petróleo e gás natural), além de terem algumas das potências nucleares do planeta. A crescente cooperação e o acréscimo de novos países evidencia uma força respeitável para colocação dos seus problemas e demandas na agenda mundial. Finalmente, a forma de negociação externa desse bloco se orienta pelo Ganha-Ganha, diferente das recorrentes formas de imposição via exploração das potências do Norte sobre os países fracos do Sul.

Se BRICS, MERCOSUL e Brasil ficaram pela estrada, essas novas potências (ou nem tão novas para a Rússia) consertaram o carro na viagem, exigência de um tempo, e seguem para uma melhor colocação na política mundial.

Para ilustrar e aprofundar, algumas informações e textos:

Segue abaixo um infográfico antigo, de 2015, anterior ao ingresso pleno de países como a Índia e o Paquistão, mas que dão a dimensão desse clube:

O texto que segue é uma abrangente e didática explicação de Pepe Escobar sobre a OCX: Ocidente não sabe nem do cheiro do que a Eurásia está cozinhando.

Finalmente, esse último texto mostra a força da Organização tendo em vista um membro da OTAN e histórico pleiteante a membro da UE se dizer apto a ingressar como membro pleno da OCX: Se a UE não se decidir, Erdogan ameaça levar a Turquia para a Organização de Xangai.

Abraços a todos e boa sorte!

Chega de chavões

Olá!

O erro dos governos recentes – e por isso se desgastaram rapidamente – foi não ter exercido protagonismo na solução de saídas para o grave impasse que imobiliza e ameaça o país há 3 anos. Precisamos superar essa crise rapidamente em nome da esperança e do futuro. (Renan Calheiros)

Dizer-se de esquerda e começar um texto com uma citação de Renan Calheiros é instigante. Dizer que ele está certo é provocativo. Quase certo…

Os últimos “governos” não mostraram protagonismo para superar a crise. Mas que governos são esses e que crise é essa?

Claro que “governos” são os dois últimos e a “crise” se manifesta na economia, no emprego, na corrupção, no “denúncio-vazamentismo” que se estabeleceu recentemente. Mas não se solucionam essas “crises” sem se pensar em outra muito mais grave: para qual sociedade se está governando e quem está, de fato, no poder?

Dessa forma, últimos “governos” são os que se sucedem desde os anos 1990 sendo governos crescentemente alheios às necessidades populares mais candentes. São governos ligados ao grande capital doméstico e internacional, são governos da elite rentista, são governos que assumiram viés dirigista – donos da verdade que são – frente a uma sociedade vista como ignorante, dotada de quase-cidadãos que se contentam em receber benefícios (urgentes que sejam) ou promessas de futuro.

Em FHC houve o início de um modelo neoliberal que privilegiou rentistas aqui e no exterior, que avançou com uma falácia de privatizações que aumentou o custo para as famílias (principalmente de classe média) na medida em que dilapidava os serviços básicos públicos exigindo aquisição de serviços privatizados ou concedidos: educação, saúde, transporte.

Em Lula e Dilma um grande avanço se estabeleceu. “Pela primeira vez na história deste país” as classes baixas foram incluídas em um mercado consumidor por medidas diversas de distribuição de renda: bolsa-família; minha casa minha vida, aumento real do salário mínimo, aumento da empregabilidade em empregos formais (Lula). Mas, para além da inclusão via renda e consumo (dinheiro, bens e serviços), o que mais se fez? “Bebida é água e comida é pasto”, dinheiro, bens e serviços são todas as coisas que um cidadão, que uma pessoa pode querer?

Faltou mais uma coisa que não se vê há tempos, que não se manifestou no Brasil ao longo da Nova República: pensar a sociedade, o que ela é e como é possível desenrolar um novo modelo político que se adeque de fato aos atuais anseios sociais. Sobrou, entretanto, preguiça mental e covardia na tentativa de reeditar o já carcomido neoliberalismo com uma falsa roupagem social. O problema é que não funcionou. Não funcionou aqui e lá.

Se no Brasil assistimos à sucessão de escândalos e ameaças a estabilidade política, não é diferente na Argentina (Kirchner-Macri), no(s) golpe(s) no Paraguai, na instabilidade na Venezuela, na corrupção endêmica e cumplicidade com o crime organizado no México, na eleição do apresentador de tv xenófobo nos EUA, no plebiscito xenófobo BREXIT no Reino Unido, na quase eleição do partido de extrema-deireita na França, na permanência do governo de traços homofóbicos na Rússia, na queda do governo promíscuo com o capital na Coreia do Sul (substituído por outro do establishment).

Ideologia. A velha palavra que foi tirada de moda é resposta para esses anseios. Por “ideologia”, em um sentido pré-marxiano, entendo uma forma sistemática de compreensão da sociedade, pautada por vieses humanistas de solidariedade e sustentabilidade (ambiental, econômica, social, cultural). A fórmula ainda é desconhecida, mas o caminho já está dado: Direitos Fundamentais (para além dos de Primeira Geração); humanismo marxiano; intervencionismo de Estado na economia e nos serviços sociais; entendimento freireano do “outro”; democracia de fato que traduza (além do mero ato de votar) a participação efetiva da sociedade nas decisões de governo, que traduza o protagonismo da sociedade; o elogio ao coletivo (contra as patéticas afirmações individualistas atuais desde a economia competitiva até o “voto em pessoas e não em partidos”); práticas econômicas solidárias-sinérgicas e não individuais-competitivas.

Já passou do tempo de se pensar uma Nova Política para além de chavões de campanhas eleitorais.

Abraços a todos e boa sorte!

Eleições na França 2

Olá!

Como um homem de 39 anos em partido recém-criado que nunca disputara eleição conquistou a Presidência da França? (Foto: AP Photo/Christophe Ena)

Terminou o segundo turno na França e, como as pesquisas apontavam, Macron sagrou-se vencedor, eleito presidente do país. Restam algumas considerações.

Rodolfo fez importantes colocações acerca do final do processo eleitoral e das dificuldades a serem enfrentadas pelo eleito, Macron.

Acompanhando a colocação do professor Rodolfo, Macron tem alguns problemas pela frente. Em primeiro lugar, validar o nome do Primeiro Ministro junto aos parlamentares. Isso pode ser difícil pois a eleição de Macron pode ser lida, em grande parte, como um voto anti-Le Pen. Os partidos de esquerda que não declararam voto no segundo turno ou que apoiaram Macron (ou se colocaram conta Le Pen) podem não compor com o presidente neste início de mandato.

Além disso – e quase favas contadas – a derrota de Le Pen não significa o fim político do clã ou, o que é mais importante, do seu discurso político. Ao longo dos últimos anos na França (Reino Unido; Europa em geral; EUA; Brasil; América Latina em geral) há uma guinada para a direita pautada por ideais como:

  • nacionalismo xenófobo;
  • valores tradicionais (incluindo religiosos);
  • entendimento do “outro” político como inimigo e não como adversário;
  • discurso político que nega a política;
  • domínio da forma (marketing de campanha, capacidade discursiva) sobre o conteúdo (partido político, coerência ideológica, plataformas políticas diversas como econômica, social, externa).

O fracasso do modelo neoliberal tornou a sociedade pobre no entendimento de si e no apontamento de alterações políticas sustentáveis. Como profetizou o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, os embates políticos estão dados entre a direita e a extrema direita.

Artigo do da DW trabalha esses assuntos da política francesa. Para ler, clique no link abaixo:

Apesar da derrota, Frente Nacional mostra força

Abraço e boa sorte a todos!

Eleições na França

Olá!

Emamanuel Macron e Marine Le Pen (Foto: Reuters)

Terminou o primeiro turno das eleições presidenciais na França. Os candidatos à “esquerda” foram derrotados de formas mais ou menos contundentes: Mélenchon teve 19,61% dos votos enquanto Hamon conseguiu 6,34%. O segundo turno francês tornou o ex-prefeito de São Paulo profético dado o enfrentamento entre a direita liberal (Macron, 23,86% dos votos) e o nacionalismo, aparentemente fascista, de Le Pen (21,45%). Aparentemente a “esquerda” vive um péssimo momento na França, ou, não apenas: Reino Unido do BREXIT; EUA de Trump; Colômbia com as negativas populares ao acordo de paz com as FARC; guinada à “direita” da América Latina. Talvez haja uma mudança de rumos para a direita, mas as análises estão sendo feitas com base nos dados do momento, sem a inserção de conceitos mais apropriados e sem perspectiva histórica.

Primeiro, os dados imediatos da França não dão a “esquerda” como coisa do passado. O atual presidente é do Partido Socialista. O candidato de melhor colocação nas “esquerdas” se posicionou em quarto lugar no primeiro turno a menos de 2% da passagem para o segundo turno das eleições. Assim, não é possível evidenciar pela disputa político-partidária uma tendência causal, unilinear, inexorável da sociedade para a “direita”. Da mesma forma como o atual presidente do Partido Socialista (Hollande) substituiu o conservador Sarkozy, eventualmente os partidos com discursos conservadores podem voltar à presidência na França. São conjunturas.

O que não é conjuntura é a tendência de afastamento das estruturas políticas, partidárias e eleitorais das demandas efetivas de uma sociedade crescentemente descontente. Nos parágrafos anteriores eu utilizei os termos “esquerda” e “direita” entre aspas. Não partilho o ideal de desatualização dessas expressões. Apesar do pântano conceitual no qual elas foram mergulhadas nas últimas décadas, acredito ser possível sua utilização desde que sob conceituação prévia. Entretanto, questiono, qual foi o significado do Governo Hollande (de esquerda, do Partido Socialista) frente ao conservador Sarkozy? Acredito que muitas demandas conservadoras que não foram implementadas em governo Sarkozy, no cenário doméstico e externo, foram postas em prática na administração Hollande. Por quê?

As estruturas políticas-partidárias-eletivas tornaram-se agigantadas em paralelo com o crescimento das necessidades de grandes grupos políticos e econômicos (corporações) dos países de maior volume e complexidade econômica (EUA, França, Brasil, Argentina). Essas corporações tem necessidades específicas, se apóiam mutuamente e, inclusive, junto aos partidos políticos desde sua formação, organização das campanhas eleitorais até o exercício de governo. Vamos a alguns exemplos:

As organizações Globo dependem de contratos publicitários de centenas de milhões de reais para sobreviver. Esses anúncios são pagos por grandes corporações, como as ligadas ao sistema financeiro. Como as organizações Globo vão organizar seu jornalismo, sua produção ficcional (novelas) tendo em vista essas necessidades imediatas? Como a veiculação de notícias (ou informações em geral, visões de mundo) vai se relacionar com as estruturas e funcionamento dos partidos políticos? E como os partidos vão atuar nas Unidades Federadas mais importantes e no âmbito da União? Se as Corporações são contempladas há crescente afastamento do governo das demandas da população. Aproveitando meu próprio exemplo, a Globo, grupo de mídia, faz o papel de um marqueteiro atenuador das contradições. Mas a população, conscientemente ou não, se dá conta dessa dissociação. O problema é que, tendo apenas a percepção do problema e não sua racionalização, as soluções implantadas pelas pessoas podem não ser as mais adequadas.

Ainda no rol dos exemplos, o Primeiro Ministro grego de “esquerda”, Tsípras, saiu da Grécia em 2015 com a força de um plebiscito realizado logo anteriormente no qual a população do país disse “não” a submissão frente ao sistema financeiro. Aquele que saiu da Grécia para negociar com a Troika com a força de um tigre voltou ao seu país com manso como um angorá dizendo ter feito o “possível” nas negociações. Assim, estranhamente, “direita” e “esquerda” tem feito mesmos governos com diferenças pontuais que, em última instância, pouco representam.

Para finalizar, volto ao problema da percepção e não racionalização do problema pela população. Há desconforto das pessoas frente á classe política, mas não há um bom entendimento do funcionamento das estruturas de poder. Como, então, reage a população? Basta olhar o crescimento dos partidos de extrema direita, dos discursos de ódio (racismo, xenofobia), do ideal nacionalista-ufanista e, principalmente, da ascensão dos outsiders da política, daqueles que se dizem “de fora” do jogo político, mas que estranhamente resolveram “entrar”.

Retomando a velha distinção de classe em-si e classe para-si, as formas de ação irrefletidas das pessoas frente ao divorcio percebido com a política só reforça esse distanciamento. O voto nesses novos aventureiros da política não é um voto de descontente que se manifesta como o mais conservador, como o que mais mantém tudo aquilo que diz negar na política. Os brasileiros não precisam de muito apelo conceitual para entender isso. Basta lembrar do caçador de marajás que derrotaria a inflação com um tiro certeiro e ver no que deu: um governo dos mais problemáticos, de curta duração, mantenedor de tudo que era mais tradicional e carcomido na política brasileira. Quanto mais se revolta sem se entender o porque da situação, menores a chances de superação dos problemas.

Para mais sobre o assunto, leiam:

Extrema direita e liberalismo ditam as regras no país da “igualdade” e da “fraternidade”

Macron vence em áreas da esquerda e Le Pen, nos extremos da França

Macron e Le Pen iniciam batalha final pela Presidência da França

Abraços a todos!

Alguém sabe falar russo? A impressa erra, é mal intencionada ou um pouco de cada?

Olá!

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Ontem, dia 11 de abril, o presidente Putin participou de uma coletiva de imprensa ao lado do colega italiano. Claro que não podiam faltar perguntas sobre o assunto do momento – a Síria. Mas o que disse Putin?

Primeiro, uma consideração. Em minhas poucas apreciações baseadas na imprensa acerca da diplomacia dos dois países, pude perceber um discurso tipo cowboy entre os diplomatas dos EUA, enquanto seus colegas russos se atinham a fatos históricos, aspectos do direito internacional, objetivação de interesses nacionais, isto é, eram mais profissionais frente aos midiáticos americanos, eram mais objetivos frente aos rompantes imaturos americanos.

A imaturidade discursiva, entretanto, não se manifesta apenas nos diplomatas dos EUA. Afinal, alguém que é indicado no Brasil para o cargo de Ministro das Relações Exteriores não pode, ao longo da campanha eleitoral nos Estados Unidos, chamar um candidato de “pesadelo” pois, afinal, o candidato pode se tornar presidente do país. Mas, deixando de lado o (atual) pobre Itamaraty e voltando aos EUA, a imprensa americana também cumpre papel semelhante ao dos diplomatas com discursos que beiram o ódio frente aos adversários externos, inclusive russos.

Talvez tudo tenha sido inaugurado com a política externa hollywoodiana de Ronald Reagan nos anos 1980, talvez seja mais uma manifestação do que alguns chamam de pós-modernidade. De qualquer forma, mais um momento lamentável em cobertura de política externa.

Na dita coletiva de imprensa do dia 11 de abril, Putin fez menção a possibilidade de novos ataques com armas químicas, encenados para aumentar a pressão externa sobre Assad. Sobre isso, veja a manchete que saiu no UOL (o Grupo Folha fez, é claro, “ctrlc-ctrlv” desde a Agência AP):

Putin acusa Trump de planejar ataque a Damasco para culpar Assad

Na Band News essa manchete foi acrescida de “sem apresentar provas” por parte de Putin.

Pensei que a diplomacia russa estava se rendendo ao estilo cowboy ocidental. Afinal, acusar Trump diretamente deste jeito? Apesar de plausível, seria uma fala excessiva desde um chefe de Estado. Quanto as provas, seria difícil apresentá-las sendo que os fatos ainda estariam por acontecer, mas…

Minha surpresa ao encontrar a mesma coletiva de imprensa na cobertura do Opera Mundi. Segue a manchete abaixo:

Terroristas planejam usar armas químicas na Síria para poder culpar Assad de novo, diz Putin

Agora, e fazendo todo sentido, “terroristas” (não o presidente Trump) estariam planejando o uso de armas químicas para aumentar a pressão americana contra Assad. Quanto às provas, seriam o resultado do trabalho dos serviços de inteligência da Rússia que teriam interceptado substâncias tóxicas em poder de grupos rebeldes na Síria, entre outras informações.

Assim, a coletiva de imprensa do dia 11 não trouxe nada de novo:

A política externa russa continua sendo desenrolada com bases técnicas e com habilidade política. E a imprensa, ou melhor, a imprensa americanófila e seu arremedo brasileiro, continua em seus esforços de desinformação.

É tempo de se pensar sobre a pergunta retórica de Karl Krause:

Como o mundo é governado e como começam as guerras?

Os diplomatas contam mentiras aos jornalistas e eles acreditam no que lêem.

Abraços e boa sorte a todos!

A manifestação foi um fracasso. E…

Olá!

As manifestações do último domingo foram um aparente fracasso. Fracasso em termos absolutos devido ao reduzido número de participantes. Fracasso relativo frente às manifestações anteriores. Mas tudo isso pode ser mera aparência, parte de um conjunto maior no qual esses “fracassos” fazem todo sentido e exigem relativização.

Era uma vez…

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O Regime Militar no Brasil pode ser entendido didaticamente em fases:
Entre 1968 e 1973-74 o Regime apresentou sua maior dureza. As oposições todas alcunhadas de “comunistas” (como se isso fosse ofensa ou justificasse atrocidades) foram objeto de toda sorte de violência: prisões, torturas, assassinatos, exílios. Após 1974 o governo percebe o esvaziamento das oposições, mas ainda restam as cobras da ditadura, aqueles que fizeram o trabalho sujo para o Regime. Então era hora de eliminar esses remanescentes de extrema direita e preparar o caminho para a normalização democrática, agora que as esquerdas já estavam bem “disciplinadas”: Lei de Anistia, pluripartidarismo, tolerância a dois candidatos civis para Presidência no Colégio Eleitoral (Maluf e Tancredo, quanta ousadia).

Era outra vez…


Na eleição do primeiro Presidente pela via direta, a sociedade brasileira optou por… Collor. Depois de alguns meses de péssimo exercício político e econômico houve crescente indisposição do Presidente com os mesmos setores conservadores que o colocaram no poder. Foram insufladas manifestações, os caras-pintadas tomaram as ruas e o Presidente corrupto foi derrubado. O “espetáculo” da democracia se realizou nos dizeres do Jornal Nacional e, no lugar do chefe do executivo corrupto foi colocado… Itamar. A mesma imprensa fez os cidadãos acreditarem no movimento caras-pintadas, manipulou pelo convencimento de que houve exercício democrático institucional na derrubada de Collor e, finalmente, apontava os “predicados” do novo chefe do executivo, na verdade, um político até então desconhecido das massas e, após seu mandato-tampão, de volta ao ostracismo.

E agora…
A Presidente eleita já praticava, desde o início do segundo mandato, um estelionato eleitoral, implementando um governo que parecia mais a plataforma política dos derrotados nas urnas. Se queria trânsito com a direita, se deu mal, foi derrubada com direito ao show de horrores na Câmara no dia 17 de abril do ano passado. Tudo isso em meio a crescente loucura das ruas, com setores historicamente (e sempre) despolitizados clamando por ética na política (alguém leu Maquiavel?) com suas camisas da seleção brasileira de futebol, com seus cartazes exigindo Ditadura Militar.


Todo esse movimento de setores da imprensa, das ruas, de setores conservadores ou oportunistas da política resultou na queda da Presidente eleita e sua substituição pelo desconhecido Temer – outro desconhecido alçado ao estrelato.
Um governo que iniciou com estelionato eleitoral entregou o exercício da Presidência aos golpistas. Uso o termo golpe não em sentido bobbiano. Porém, se um grupo político usa trâmites distintos dos eletivos para chegar ao poder e implementar um programa avesso a demanda das urnas, isso é golpe.
Mas depois de meses de xingamentos em redes sociais, cusparadas, ameaças de agressões físicas a um senador, parece que uma calma ronda o purgatório. Em meio a uma profunda recessão, com aumentos recordes de desemprego, reprimarização da economia, destruição dos setores econômicos mais competitivos (pecuária, petróleo, engenharia civil), em meio a tudo isso, mais uma passeata conservadora organizada para o último domingo. Mas, quem diria, esvaziada em participantes.

Lamento de conservadores. Riso das esquerdas anunciando uma virada, a luz no fim do túnel. Será mesmo?

A imprensa (conservadora) não deu a devida atenção à manifestação. Não houve o marketing que as outras passeatas tiveram. Não houve catraca livre no metro. Quem sabe houve a mesma percepção que os militares tiveram em meados dos anos 1970 de que era hora de parar com o “povo na rua”, pois povo na rua por muito tempo, não importa quem e porque, não é bom para quem está no poder. Quem sabe houve a iniciativa de apagar as luzes depois da “festa da democracia” que em 2016 derrubou a Presidente para elogiar o obscuro novo presidente não eleito como o “salvador da pátria”, o “reconciliador”, “aquele que unificaria a nação”. Lembra, vagamente, o “espetáculo da democracia” do Jornal Nacional para os caras-pintadas. A História às vezes se repete como tragédia.

Para quem se diz de esquerda não há o que comemorar. Toda a pauta conservadora apresentada ao Congresso (petróleo, terceirização) é aprovada, não importa o quanto os poucos grupos contestadores organizados possam gritar. Quando não é aprovada imediatamente (Previdência) é por atritos entre os próprios setores políticos conservadores se digladiando (União, Estados e Municípios).

Para quem se louvou ao derrubar Dilma, ainda não há que se entregar. Afinal foi só uma passeata fracassada em meio à onda conservadora que veio com força não só no Brasil, pois Argentina, França, Reino Unido, Estados Unidos estão aí para mostrar.

De tudo isso resta uma coisa que poucos duvidarão como positiva. As passeatas com camisas da CBF eram lugares privilegiados para fascistas. Mesmos os críticos mais arraigados do governo Dilma, se dotados de alguma alfabetização política, se envergonhavam por marchar ao lado desses trogloditas. Ao menos esses analfabetos da política perderam um dos seus palanques. Sempre tem um lado bom…

Abraço e boa sorte a todos!

Vil metal e suas manifestações

Olá!

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A obra acima é “o cambista e sua mulher”, de Matsys de 1514. O “cambista” é o homem dos negócios com moedas, algo como o banqueiro da atualidade. Evidentemente destacado no quadro é a mulher do cambista, observando atentamente o ofício do marido enquanto passa descompromissada as páginas de um livro: a Bíblia. O pintor, talvez, esteja fazendo uma crítica às tendências materialistas do fim do Medievo e início da Modernidade, com o avanço do capitalismo em uma sociedade pautada pelo aumento da riqueza sem pensar nas causas, consequências e eticidade do processo.

Em alguma parte do livro folheado pela desatenta mulher há uma passagem mais ou menos assim: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza”.

Não quero com isso ter apelo religioso na crítica à formação de uma sociedade baseada no deus riqueza. Talvez a crítica valha para evidenciar a hipocrisia de uma sociedade que lê livros que condenam os adoradores do “cordeiro de outro” e faz exatamente a mesma coisa no cotidiano.

Mas, para além da hipocrisia, há que se pensar em um padrão desviante, uma doença, uma obsessão. A retenção do ouro, das riquezas, já foi entendida por diferentes psicanalistas como semelhante a retenção fecal, processo que lembra uma das fases de desenvolvimento da libido em Freud.

“O vulgo captou plenamente a relação inconsciente que existe entre a matéria fecal e o dinheiro, a que chama “o vil metal” ou o “dinheiro sujo”, e muitas situações econômicas são igualmente definidas com termos usados de maneira corrente para designar as fezes ou o que está vinculado a elas. Na Argentina, chama-se quem não tem dinheiro de “seco” — e “seco” também é o indivíduo com prisão de ventre”. (Tallaferro)

Se na Argentina a prisão de ventre é tratada por “seco”, no Brasil pode ser tratada como “apertado”, denominação semelhante a de quem está represando seus gastos.

Para aprofundar esse tema interessante, segue um texto apresentado no site “outras palavras”. Clique no link ao lado: Capitalismo, dinheiro e excrementos.

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Boa sorte a todos!