sobre gênero

Olá!

“Não me interessa escapar da minha miséria sexual pondo a mão na bunda de uma mulher no transporte público. Não sinto qualquer tipo de desejo pelo kitch erótico-sexual que vocês propõem: caras que se aproveitam da sua posição de poder para dar uma rapidinha e passar a mão em bundas. A estética grotesca e assassina da heterossexualidade necropolítica me enoja. Uma estética que renaturaliza diferenças sexuais e coloca homens na posição de agressores e mulheres na de vítimas (dolorosamente agradecidas ou felizmente incomodadas).”

Trata-se de um trecho da carta do filósofo Paul B. Preciado traduzida por Laura Erber na sua página do facebook.

Pela primeira vez tive acesso a uma forma de entendimento do problema das denúncias sexuais hollywoodianas que transcendeu a falsa polêmica “metoo” contra os artistas e intelectuais franceses. Em uma simples carta há maior embasamento conceitual, maior profundidade e amplitude no esforço de entendimento do fenômeno.
Ignorante que sou no tema, destacou-se um fato raro nas posturas do filósofo: as relações com a filosofia, política e economia. Usual nas discussões de gênero é haver negligência acerca de outras formas de dominação ilegítima que foram relegadas ao passado apenas por terem saído de moda e não por terem sido efetivamente superadas: classe, renda, entre outras. Lamentável quem reforça esse modismo, mas que, acredito, não está presente nessa “carta”.
Em meio às falsas polêmicas, resta aprofundar no pensamento deste filósofo na expectativa de aclaramento deste problema.

Para quem se interessar, segue a página com a tradução da “carta”.
carta de Paul Preciado

Em tempo, antes que eu seja acusado de colocar um post sobre um filósofo falocêntrico, Paul nasceu na Espanha há 41 anos sob o nome de Beatriz.

Abraços a todos e boa sorte!

Sobre guerras e gentes

Olá!

Sempre o confiável El País publicou um artigo que mais se aproxima de um entendimento historiográfico, uma crítica à “grande história”, estrutural ou de grandes personagens. Trata-se da história feita por gentes que manifestam no cotidiano os grandes problemas que mudam os tempos. Entretanto, o artigo traz muito mais.

“Existe uma história oficial sobre o 6 de agosto de 1945, quando Hiroshima perdeu 90% de suas construções e 25% de seus habitantes em meia hora. A destruição e as doenças continuariam crescendo muito tempo depois da explosão da bomba atômica Little Boy e da rendição do imperador Hirohito. Os norte-americanos mediram o impacto da catástrofe que eles mesmos causaram: 306.545 atingidos. Nos relatórios, entretanto, não é possível ver o medo, a incredulidade e a dor dos moradores de Hiroshima, protagonistas forçados da hecatombe. Para isso é bom ler as cartas que Toyofumi Ogura (1899-1996) escreveu a sua esposa Fumiyo: “Quanto mais avançava, mais me empenhava em seguir o ditado dos três macacos de ‘não ver o Mal, não escutar o Mal e não dizer o Mal’, e procurava não falar com ninguém. Depois de encostar no cadáver daquela mulher no final da ponte do bonde, rio abaixo a partir da ponte Kyobashi, decidi acrescentar um quarto macaco sábio que indicava ‘não tocar no Mal”.”

Trata-se de um ano que se mostra difícil em diferentes frentes, inclusive com a tendência a mais uma aventura militar dos EUA contra, desta vez, a Coreia do Norte. Há os noticiários, há os analistas militares, historiadores e discursos de políticos. Mas há que se pensar que pessoas (que acordam cedo, pagam contas, tem planos… como qualquer um de nós) serão envolvidas em um turbilhão que, visto por esse prisma, é ainda mais insano, injustificável.

Valem as palavras de Zweig em sua Autobiografia, uma pessoa judia que viveu na Áustria os horrores da Grande Guerra e da Segunda Guerra Mundial.

“O Sol brilhava intensamente. Ao voltar para casa, vi de repente diante de mim a minha própria sombra, assim como via a sombra da outra guerra atrás da atual. Durante todo esse tempo, essa sombra não saiu mais do meu lado, ela envolveu cada um dos meus pensamentos, de dia e de noite; talvez seus contornos escuros também estejam em algumas folhas deste livro. Mas toda sombra é, em última análise, também filha da luz. E só quem conheceu claridade e trevas, guerra e paz, ascensão e decadência viveu de fato.”

Vale lembrar que essas palavras foram escritas pouco tempo antes de o escritor tirar sua vida nas montanhas de Petrópolis.

Quanto ao artigo, basta clicar no link: Querida história, te escrevo da guerra

Abraços a todos e boa sorte!

Olá!

“Vivemos num mundo estranho e estranhamente entendido”.  (Santos)

Stefan Zweig era um intelectual (romancista, biógrafo, jornalista…) judeu de origem austríaca. Pelas ironias de tempo e espaço, viveu na Europa do final do século XIX até os anos 1930. Viveu o auge da Belle Époque sendo que dela pode tirar proveito do clima intelectual e de liberdade. Mas também viveu a Grande Guerra que lhe incutiu um pacifismo inquebrantável. Depois, para maior amargor, viu a ascensão do nazi-fascismo na Europa Central, inclusive na sua Áustria natal. Teve que se exilar de sua terra e, ao fim, exilou-se de sua vida. Sim! Matou-se no Brasil em 1942. Deixou uma carta que ilumina o tempo presente:

DECLARAÇÃO

Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite.

Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes.

Stefan Zweig

Talvez tenha havido aurora nos anos 1940. A Guerra se foi, os países europeus entraram em um longo período de estabilidade. A segurança que Zweig tanto prezava (poderíamos chamar de Direitos Fundamentais de Primeira Geração) evolui para um Estado de Bem-Estar Social. Mas os meandros da história…

No final do século XX, quando da derrocada do que – para alguns – seria o último bastião do autoritarismo, o socialismo, eis que vem com força a irracionalidade na política e a violência colocando milhões de pessoas em descaminhos. Desde Trump, passando pelas “fobias” ao humano (xenofobia, homofobia…), pelos fundamentalismo até o Estado Islâmico, os exemplos tomariam muito tempo. Pior: se Zweig tentou se refugiar no “mestiço e acolhedor” Brasil dos anos 1940, esse Brasil não há mais, tomada que está por insegurança e ódio.

Em clara referência ao autor austríaco, o personagem Mustafa do filme O Grande Hotel Budapeste diz que “To be frank, I think his world had vanished long before he ever entered it – but, I will say: he certainly sustained the illusion with a marvelous grace!” [Para ser franco, acho que seu mundo tinha desaparecido muito antes dele entrar – mas, eu digo: ele certamente sustentou a ilusão com uma graça maravilhosa!].

A aurora ainda não chegou. Há que se trabalhar por ela com uma graça maravilhosa.

Abraços a todos e boa sorte!

Mais uma vez, Bitcoin

Olá!

Cartoon of the Day: Bitcoin Bubble? - BitCoinCartoon03.19.2014

Quando o professor critica a criptomoeda em sala é chamado de “sabe-nada”. Quando o jornalista critica o bitcoin, é sabe-nada e comunista, adorador do controle do Estado.

Aqui seguem exemplos:

Bitcoin, a TelexFree dos ricos, cultos e descolados?

O jornalista e editor internacional da Carta Capital escreveu esse artigo, aparentemente bastante adequado, nos velhos idos de 2014. Levantou problemas diversos e graves ligados à “nova moeda” como a vulnerabilidade sobre o valor e o trânsito do bitcoin. Afinal, não há governo e leis que atuem no sentido de estabilizar a moeda e dar mínimas garantias dos investimentos ou junto aos agentes econômicos em geral.

Mais que rapidamente, o antenado economista e blogueiro da InfoMoney escreveu um texto mostrando como o editor da Carta Capital “sabe-nada” de criptomoeda. Mas sua réplica parece problemática em alguns pontos:

1. Frequentemente o blogueiro InfoMoney usa o argumento histórico para mostrar como as moedas tradicionais são ruins e a criptomoeda é boa. Há um problema evidente nessa argumentação, qual seja, não há uma história do bitcoin para ser feita comparação. Escrever como as moedas usuais “fracassaram” no passado não é mostra de potencial sucesso da “nova moeda”.

2. Há, como em todo neoliberal, uma visão medíocre acerca de condições básicas de funcionamento político da sociedade. Tudo o que se refere a Estado é ruim, autoritário, etc., etc. A ideia de uma entidade política que funciona em diferentes instâncias sociais (educação, segurança interna e externa, justiça, saúde… economia…) e é constituída de forma dinâmica com base na pluralidade de agentes na sociedade parece ainda não ter sido entendida (faço referência àquilo que é vulgarmente chamado de Democracia). E olha que a literatura em Ciência e Filosofia Política Anglo-Saxã é vasta nesse campo ao longo da segunda metade do século XX (paradoxalmente, quando o ideal neoliberal se organizou com maior força).

3. Ainda é difícil entender como moeda com emissão limitada e reconhecidamente com tendência de deflação pode ser justificada como um bom recurso de compra e venda de bens e serviços. Se a moeda se valoriza ela será entesourada ao invés de ser utilizada para a compra e venda. Essa moeda valorizada emperraria a atividade na economia real.

Segue o texto do blogueiro para análise: O problema são os economistas, não o bitcoin

Para finalizar, seguem mais dois textos de críticos do bitcoin.

Jornal do Brasil

BBC Brasil

O primeiro faz referência a uma entrevista com Paul Krugman. O segundo, é de Joseph Stiglitz. Mais dois críticos da criptomoeda, dois “sabe-nada” de economia, dois prêmios Nobel.

Abraços a todos e boa sorte!

Pensar por si: recurso escasso

Olá!

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“Pensar por si mesmo não é um dado primário alegremente disponível no ponto de partida, mas, sim, o resultado da dor e penúria de um esforço de pensamento, em que ao gozo e ao prazer de reconhecer e descobrir opõe-se o sentimento de traição; ao consenso, o sentimento da criação como transgressão.” (O reconhecimento do próximo: notas para pensar o ódio ao estrangeiro – Marcelo Viñar)

Já houve quem profetizasse que o fim da URSS e a difusão do capitalismo neoliberal resultariam em uma nova polarização política-ideológica-civilizacional: entre a direita capitalista e a extrema direita marcada pela intransigência e veiculadora do discurso do ódio. Esse tempo chegou.

Trata-se de um tempo de adjetivos e não de substantivos; de redução do debate frente ao ataque. Um tempo de não pensar. Diante do pensamento conservador, o padrão desviante é visto com ódio, ódio que leva ao não pensar, ao ataque com vista à eliminação, destruição física ou, ao menos, simbólica. Hoje as razões que levam a pessoa a ser vista como outro desviante, objeto de toda raiva, são cada vez maiores.

A lista é inacreditável e, aparentemente, interminável: a terra é plana, a evolução não existe, homem e mulher são dados no nascimento, políticas distributivas de renda são coisas de comunistas, saúde pública é coisa de nazista… Para que eu não seja acusado de contradição, todas as coisas listadas acima são passíveis de debates. Mas não se debate com ideias pré-concebidas tomadas como absolutas com vistas à “vitória” sobre o Outro. Parafraseando Arendt , no debate se mostra ao Outro todas as “armas” que serão usadas. Afinal, a verdade – dialeticamente – não está dada a um ou a outro: está no “meio”, numa terceira coisa a ser descoberta pelo debatedores.

Para que esses debatedores produtores de ideias possam existir é necessária a doação. Doação de si ao Outro e reciprocidade. Afinal, o que eu sei pode ser falho, parcial, contraditório. Pode, apenas, contribuir com o discurso alheio na produção da verdade. Ou, menos que isso, eu posso apenas estar errado na minha abordagem. Tenho, portanto, que reconhecer o erro, voltar à última encruzilhada e tomar outro caminho. Mas, como sugeriu Fromm, talvez o santo imaculado não conseguisse trilhar o caminho do pecador arrependido. Afinal, “minha verdade” nunca está errada.

Ninguém é mais avesso à doação que o inseguro. Quem tem medo de perder não abre mão de qualquer coisa. A abnegação, necessária à doação, é ilustrada nesta passagem do poema “SE”:

(…)

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;

(…)

Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais — tu serás um homem, ó meu filho! (Kipling)

[Um mundo cheio de certeza e carente de homens]

Mas como uma fala, uma ideia, uma postura diante da realidade pode gerar “perda” em alguém?

As ideias pré-concebidas do parágrafo anterior não são (como ensina a psicanálise) da pessoa. São do grupo do qual a pessoa acha que faz parte. O racismo se manifesta em uma pessoa que acredita ser do grupo “branco” em oposição às pessoas negras. Quanto maior o ódio ao negro, maior a sensação de pertencimento ao grupo “branco” do qual a pessoa acha que faz parte. Quem tem medo de perder o grupo do qual acha que faz parte é sempre violento frente aos que afrontam o grupo (na visão do racista). A mesma sensação da criança frente ao abandono dos pais, do adolescente rejeitado pelo grupo.

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A impressão que se tem é de uma sociedade formada por crianças e adolescentes imaturos, vulneráveis, inseguros e violentos, muito violentos.

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Hoje se faz o elogio à competitividade e à individualidade. O problema é que, para alguém ganhar, alguém tem que perder. Estabilidade no emprego, na família, na religião, nos valores… Não há mais. No que alguns apologistas chamam de Pós-Modernidade a marca é a fluidez. Como ter segurança neste contexto? Ao contrário, a percepção de insegurança lança mais e mais pessoas a se agarrarem ao gelo fino que flutua na água fria: ufanismo, fundamentalismo religioso. São “crianças” e “adolescentes” de 20 a 70 anos que se “diferenciam” como racistas, xenófobos, homofóbicos… Mas se igualam na insegurança e violência.

É neste contexto que introduzo Bergoglio. Colocando a mim na gênese do preconceito, tive uma primeira impressão muito ruim do novo papa Francisco. Entendi, entretanto, que se tratava de um ranço formado em mim pela herança dos dois últimos papas, isto é, tive que reconhecer que estava errado na minha opinião primeira. Se até agora Francisco não produziu nada de concreto em mudanças na Igreja, o seu discurso se adéqua aos ideais humanistas quanto à relação da Igreja com homossexuais, casais separados, problemas ambientais, acumulação material ilimitada, entre outros. Talvez esse seja o problema.

 

 

Há resistências à Francisco desde o início do seu papado e crescentes até a atualidade. Não sou conhecedor profundo da doutrina católica ou dos meandros políticos do Vaticano, mas, até agora, o que eu li de críticas a Francisco se caracterizam por falas sem substância, pautadas pela iniciativa de ataque àquele que se comporta de forma diferente. Frequentes críticas despropositadas, oriundas inclusive do meio católico, direcionadas como discurso de ódio ao Papa. Se as posturas críticas e humanistas do Papa são objeto de ódio, o que não dizer de nós, desconhecidos cidadãos?

Abraços a todos e boa sorte!

Trabalho infantil e PNAD

Olá!

Relatório PNAD Contínua 2016 publicado hoje no site do IBGE sobre trabalho infantil. Alguns trechos:

Pelo menos 54,4% das crianças que trabalhavam estavam em situação de trabalho infantil, não permitida pela legislação

Dentre os ocupados de 14 ou 15 anos na posição de empregado, 89,5% não tinham carteira de trabalho assinada. Já entre os empregados de 16 ou 17 anos, o percentual dos que não tinham registro em carteira era de 70,8%.

Dessa forma, a população infantil em ocupação não permitida é representada pelo somatório das crianças de 5 a 13 anos de idade ocupadas (190 mil pessoas), o contingente de 14 ou 15 anos ocupados que não obedeceram às condições legais de jovem aprendiz (196 mil pessoas), e os de 16 ou 17 anos sem registro formal (612 mil pessoas). Esse contingente chegava a 998 mil pessoas em 2016, ou 54,4% dos ocupados no grupo etário de 5 a 17 anos de idade.

Outras condições que caracterizam o trabalho infantil, como a realização de atividades insalubres ou perigosas (mesmo que o trabalhador seja registrado) e o treinamento devido ao jovem aprendiz, não são captadas pela pesquisa e, portanto, não foram contabilizadas no percentual referente à população infantil em ocupação não permitida.

(…)

Metade (50,2%) das crianças realizam tarefas domésticas

Em relação a outras formas de trabalho, em 2016, aproximadamente 716 mil crianças de 5 a 17 anos trabalhavam na produção para o próprio consumo, o equivalente a 1,8% do total, e 20,1 milhões realizavam trabalho com cuidados de pessoas e afazeres domésticos (50,2%).

Das que trabalhavam para o próprio consumo, 91,6% estudavam, e, das que realizavam afazeres domésticos, 95,1% eram estudantes. Estes resultados sugerem que apesar das crianças terem realizado estas tarefas fora da produção econômica, isso não impediu que a grande maioria delas se mantivessem na escola.

A região Norte apresentou o maior percentual de crianças realizando trabalho na produção para o próprio consumo (3,4%), seguida pela região Nordeste (2,5%). Já em relação às tarefas domésticas, as regiões Sul (60,5%) e Centro-Oeste (55,1%) se destacaram.

A média de horas semanais destinadas a estes trabalhos (produção para o próprio consumo, afazeres domésticos e cuidados com pessoas) por crianças de 5 a 17 anos foi de 8,6 horas, sendo 7,5 horas para produção para o próprio consumo e 8,4 horas para cuidados de pessoas e afazeres domésticos.

Quando considerado apenas as horas destinadas a afazeres domésticos, verificou-se maior dedicação por parte das meninas (9,6 horas) do que pelos meninos (6,9 horas).

Além disso, 72,3% das crianças ocupadas também realizavam trabalho na produção para o próprio consumo e trabalho em cuidados de pessoas ou afazeres domésticos.

Valem algumas reflexões:

Primeiro, é claro há irregularidades evidenciadas pela pesquisa frente ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Em seu artigo 60 o ECA estabelece que “É proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade, salvo na condição de aprendiz”.

Sem qualquer tipo de questionamento ao artigo 60 do ECA, como é possível interpretar as ilegalidades evidenciadas pela pesquisa PNAD?

Nos últimos anos há forte retração da atividade econômica com mais famílias em condições financeiras que se encontram no limiar da dignidade (ou estão, há muito, abaixo da “dignidade”). A segurança material da família depende, nesse caso, de mais entes exercendo atividade remunerada ou contribuindo com a atividade de subsistência material ou financeira da família. A correção deste problema para adequação ao ECA passa pela retomada do crescimento econômico e empregabilidade com trabalho de boa qualidade (direitos de seguridade preservados). As medidas econômicas restritivas da atualidade seguem na direção oposta. Isso é reforçado pela Reforma Trabalhista que precariza a condição do trabalho frente ao capital.

Outra solução seria a intensificação de programas de distribuição direta de renda que, ao mesmo tempo, exigem, entre outras coisas, a criança ou adolescente matriculado na escola, isto é, Bolsa Família. Da mesma forma como o trabalho está precarizado, os programas sociais do governo sofrem sucessivas dilapidações.

Pensando em aspectos sociais, aonde estão as creches e escolas de Ensino Fundamental que evitam a indesejável situação de “o mais velho cuida dos mais novos”? Sem esse recurso público famílias de baixa renda na qual os adultos precisam exercer atividade extra domiciliar deixam os filhos em situação irregular frente ao ECA e de alta periculosidade.

Até mesmo a organização do espaço urbano conta para o problema do trabalho infantil. Custos elevados de deslocamentos de famílias moradoras das periferias aumentam a necessidade de renda familiar. A reorganização do espaço urbano é fundamental para melhores condições de vida das famílias, das crianças e adolescentes.

Finalmente, a necessidade de modernização para superação de tradições ligadas ao uso de crianças no trabalho rural. Porém, a palavra modernizar deve aqui significar a regularização da vida social e não mera introdução do tempo do capital no campo, recorrente nas últimas décadas, acentuador da desarticulação das relações no campo (familiares, trabalhistas) e dos problemas consequentes nas cidades.

Escrevo tudo isso porque o primeiro artigo que eu li hoje acerca do tema da margem para, muito facilmente, ser formada culpa sobre as famílias cujos filhos estão trabalhando em desacordo com o ECA. Claro que a pesquisa PNAD não afirma isso e a adequação ao ECA é fundamental, mas cabe refletir que os problemas geradores desta contradição são muito mais profundos, amarrados às estruturas sociais formadas em nossa história. A pesquisa PNAD é, apenas, mais uma reforçadora da exigência de a sociedade pensar os problemas da sua formação e as profundas mudanças que ela exige.

Abraço a todos e boa sorte!

Como a União Soviética influenciou o surgimento e a expansão do radicalismo islâmico, ou o dia do mau jornalismo da BBC Brasil

Olá!

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A BBC Brasil também tem seu dia de revista Veja. A manchete acima (Como a União Soviética influenciou o surgimento e a expansão do radicalismo islâmico) exige um artigo que aponte a relação entre a velha União soviética e a formação do terrorismo islâmico atual. Mas, como se diria vulgarmente, “só que não…”.

Em primeiro lugar, há repetidas sugestões inconclusas no texto. Vejamos:

Alguns autores argumentam que essa prática religiosa não oficial, somada à rigidez do governo, levou à radicalização dos muçulmanos soviéticos. No entanto, há dúvidas sobre esse ponto. [negrito meu]

“Se você soma todos os países pós-soviéticos, você verá que eles enviaram o segundo maior número de militantes para o EI (o autodenominado grupo Estado Islâmico) depois da Tunísia. No entanto, acho que há particularidades desse fenômeno que são contraditórias com o período soviético“, diz o professor Nunan. [negrito meu]

Ao que parece, em várias oportunidades nas quais serão evidenciadas as relações entre a velha URSS e a formação do terrorismo islâmico, há controvérsias…

Além disso, cereja do bolo, a visão passada pelo autor da guerra civil no Afeganistão nos anos 1980. Segundo o autor, a reação dos nativos afegãos contra a ocupação soviética “fomentou” o fundamentalismo islâmico. Mas como isso ocorreu? Desde o nada?

É sabido do apoio americano e saudita aos rebeldes afegãos contra o governo comunista deste país nos anos 1980. O próprio texto cita isso e nem precisava. Afinal, o mundo ficou sabendo através do patético Rambo III do apoio americano aos insurgentes. Vale lembrar que o filme termina com uma dedicatória ao “valente povo afegão”, o mesmo que a imprensa americana chamaria de louco incivilizado Talibã nos anos 1990.

O apoio dos EUA e da Arábia Saudita na formação de madrasas (escolas confessionais do islã, uma instituição antiquíssima) no Paquistão foi fundamental para constituição de uma ideologia anti-soviética (fundamentalismo sunita) além de viabilizar o fornecimento a essas pessoas de treinamento, de recursos financeiros, logísticos e militares. É mais que sabido que o Talibã anti-americano dos anos 1990 foi mais um blowback da política externa dos Estados Unidos: interferir em uma área conflituosa para obter resultados que se mostram adversos com o tempo.

Em resumo, é fácil chutar cachorro morto. Quem “defenderia” a URSS hoje se até Putin tem desavenças com o Partido Comunista da Rússia? Além disso, é melhor para a geopolítica americana (e britânica, sua assecla europeia) que haja outros responsáveis pela difusão do fundamentalismo islâmico. Entretanto, e pensando de forma muita prática e imediatista, os vestibulandos não podem se dar ao luxo de análises históricas enviesadas por necessidades geopolíticas contemporâneas em ano de aniversário de um século de Revolução Russa. Ao menos para quem vai prestar vestibular, não é hora de erros grosseiros como este.

Abraços a todos e boa sorte!

Em tempo: Carniça atrai urubu: Em uma rápida pesquisa no Google antes de postar o texto já vi que UOL e G1 republicaram o texto da BBC. Os macacos de imitação brasileiros não podiam ficar de fora dessa…