a Queda da Bastilha não é um problema de engenharia

Olá!

O que seria pior que um jornaleco?

Vejamos a lamentável manchete da revista Veja sobre a obra do historiador Eric Hobsbawm: “A imperdoável cegueira ideológica de Eric Hobsbawm

Como sempre um falso jornalismo para pseudo-intelectuais. O artigo confunde biografia, linha de pesquisa histórica, eventos históricos e uma falsa leitura psicológica de Hobsbawm.

Apenas essa publicação, menos que um jornaleco, poderia tentar macular a honestidade intelectual que sempre marcou os textos de Hobsbawm.

Para quem se interessar, assista ao vídeo no site Historia Online do professor Octávio Ianni no programa Roda Viva. Acompanhem, também, o comentário do professor Rodolfo sobre a usualmente precária visão jornalística frente à pesquisa histórica.

Segue, abaixo, um trecho da entrevista que ilustra a visão objetiva e estruturante do sociólogo sobre, por exemplo, os episódios do 11 de setembro nos EUA.

Chico de Oliveira: Neste sentido, quer dizer, parece que a sua capacidade, a sua acuidade de perceber a transformação, acho que de novo ela se revela. Eu já assisti, há 40 anos, a previsão sua que poucos meses depois se confirmou. Mas eu quero puxar esse assunto no seguinte sentido: neste ciclo, que está se acabando, e que este ato político que o World Trade Center fez foi o fim do liberalismo.

Octavio Ianni: Foi um choque tremendo. Deixa eu desdobrar, eu prometo ser breve. Aparentemente é um ato terrorista, um ataque terrorista. Aliás, é de fato um ataque terrorista. Inclusive com o custo de milhares de vidas inocentes. Quanto a isso, não há dúvida. As intenções dos seus atores podem ser exclusivamente terroristas, mas isso não esgota o acontecimento. O acontecimento ganhou outro significado pela reação do governo americano, pela reação dos governos europeus, pela maneira pela qual o Tony Blair [primeiro ministro britânico em 2001, época do atentado às torres gêmeas de Nova Yorque] saiu pelo mundo fazendo a propaganda da guerra, que é um capítulo que não deve ser menosprezado. Tentando legitimar uma guerra enlouquecida. Por que não se apelou à ONU? Afinal, os Estados Unidos são membros da ONU. Por que não se apelou à ONU ou a outras organizações transnacionais que ajudariam a clarificar? Antes que se tivesse clareza sobre quem foram os responsáveis, se declarou a guerra. E todos sabemos, inclusive as revistas americanas informam, que o complô foi montado na Alemanha, não foi no Talibã. Não foi no Afeganistão. E ainda não está claro que o Bin Laden esteja comprometido com o atentado. Os próprios americanos ainda não deixaram claro. Ou então eles têm uma informação que é secreta. Ele deve estar em uma das cavernas.

Jorge Caldeira: 5 mil vidas é dano colateral, nesse caso político?

Octavio Ianni: Não, não estou falando isso. Não há dúvida que foi um ataque terrorista. Mas o ataque terrorista não esgota o fato [grifo meu]. Vejam bem, a queda da Bastilha não é um problema de arquitetura, é um problema de história. A queda do muro de Berlim não é um problema de arquitetura, é de história.

Ianni, Hobsbawm… Personalidades que tentavam dar sentido ao caos da política internacional através da razão. Nada mais humano…

Abraços a todos!