manifestações e apartidarismo: o início da pós-política?

Olá!

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(…) devemos nos despedir das nossas maneiras de pensar, sentir e agir; dos nossos conceitos, hábitos, prenoções; das nossas sensações e desejos. (…) Se a sedução pode terminar em desilusão bem pode ser porque a demanda é impossível de satisfazer. Para alguns, porque precipita na angústia de não saber se a dívida foi definitivamente paga ou se há, ainda, alguma promissória esquecida disposta a nos surpreender desprevenidos. Para outros, porque a ascese pode revelar-se asfixiante pois aceitar a repetição condena à condição do eterno aprendiz. (Um século à espera de regras – HELOÍSA RODRIGUES FERNANDES)

Quem conhece um mínimo sobre quem escreve neste blog sabe que o título do post traduz uma provocação. A pergunta não significa uma sugestão. Talvez seja uma pergunta retórica.

As manifestações de rua evidenciam uma capacidade (potencial; ainda posta à prova) de rompimento da inércia. Mas isso, por si, não basta, muito pelo contrário.

Tenho visto com pesar a tendência de negação da política “tradicional” feita até por ditos especialistas. As manifestações seriam “apartidárias”, “povo livre de amarras ideológicas ou partidárias”, “apenas brasileiros clamando”, entre outros slogans “bunitinhos”.

Essa forma tão inovadora de fazer política não parece tão nova ou exclusividade das ruas das cidades brasileiras. Occupy em Nova York, manifestantes apartidários na Grécia, movimento da Primavera Árabe. Mas… O que resultou disso até agora? Esse movimentos estão próximos do esquecimento, foram marginalizados ou cooptados por forças conservadoras.

Alguns conjuntos de manifestantes nas ruas clamavam por: redução das tarifas de transporte público; contra a PEC37; contra a PEC33; contra a lei do nascituro; contra o deputado Feliciano; contra os gastos da Copa das Confederações; contra a corrupção; contra a permanência da atual idade de maioridade penal; contra o governo Alckmin; contra o governo Dilma. (!) Quantas coisas! Quantas contradições!

A ausência de um projeto para a sociedade é tão clara quanto a afirmação de suposto apartidarismo dos manifestantes. Mas não se transforma a sociedade sem política, sem organização através de movimentos dotados de ideologia, de estrutura e de objetivos claros – imediatos e distantes – concordantes com a visão de sociedade que está dada na organização, visão constituída de forma democrática nas bases do grupo político.

Há quem queira reinventar a roda com novas formas de fazer política. Mas inda não…

Garimpando a internet, encontrei esse texto no site da Carta Capital:

Mundo em crise, esquerda em crise, jovens nas ruas. E daí?
O sistema não conhece oposição. E isto é talvez mais grave do que a crise em si.

Publicado no distante ano de 2011, parece profético em relação aos acontecimentos recentes no Brasil.

Talvez até por decorrência da orfandade político-ideológica, setores do pensamento de esquerda abandonam a  resistência e a militância, abalados pelo que Hegel chamava de ‘hipocondria do antipolítico’, caracterizada pelo desalento e a depressão que normalmente se seguem a uma grande derrota. Esta de agora é, ainda,  o autodesmoronamento da URSS. A angustia de uns leva à inação; noutros setores transforma-se na auto-entrega aos ditames ideológicos do discurso único e aos apelos materiais do statu quo. As atuais gerações vêem seus tempos se dissiparem, e quando caminham na direção do horizonte este parece se afastar. Como o futuro transforma-se numa quimera, resta viver o presente, a qualquer custo, a qualquer preço. Inclusive ao preço da renúncia aos seus próprios valores. (Roberto Amaral)

Talvez fosse tempo de voltar ao velho conceito de anomia em Durkheim…

Abraços a todos!