Imprensa, eleições e desinformação

Olá!

Sempre que as eleições se aproximam setores da imprensa são tomados de uma vacância mental ou, mais obviamente, de pura má-fé. É o caso recente de um artigo publicado pelo grupo Folha em seu jornal(eco) Folha de São Paulo. Segue abaixo o link para o artigo:

Pesquisa do IBGE derruba três mitos do governo Dilma sobre o emprego

Antes de continuarmos, uma ressalva. Esse post não se traduz em um esforços de convencimento político-partidário, muito menos de apologia ao atual governo. Os meus alunos sabem que eu já declarei em todas as salas que eu voto em um texugo antes de votar em qualquer dos três pré-candidatos que lideram as pesquisas. Feita a ressalva, vamos à análise:

Os três pontos fundamentais do artigo são sintetizados em:

1. Mito do Pleno Emprego: Seria uma inverdade pois os NOVOS DADOS disponibilizados pelo IBGE mostram que o desemprego é mais alto do que se pensava considerando maior número de cidades aferidas além de haver desequilíbrios regionais com desemprego mais elevado no Nordeste. O desemprego que o governo ALARDEIA seria de 5%, mas, considerando mais cidades, subiria para 7%, alcançando 9,5% no Nordeste.

Afronta à mente do leitor!

Como o governo pode “mentir” sobre dados que ainda não existem? O próprio artigo destaca que são NOVOS dados do IBGE! Assim, os novos dados mostram que são necessárias novas políticas públicas para interiorização da empregabilidade e e intensificação das políticas de geração de empregos em regiões pobres como o Nordeste. Isto é, o caminho da empregabilidade está certo mas precisa de ajustes.

Há uma coisa que, entretanto, o jornal(eco) omite: realmente há uma das menores taxas de desemprego da história considerando os últimos 20 anos e o velho governo PSDB de FHC, tão querido por essa publicação. Veja o gráfico abaixo:

emprego brasil 1

2. Mito de uma das menores taxas de desemprego frente aos outros países: Segundo o artigo, o governo faz autopromoção com um baixo desemprego que seria o mesmo em vários outros países do mundo. Novamente, uma afronta à inteligência do leitor que beira à propaganda política.

Na comparação com vários países do mundo, inclusive centrais, o Brasil apresenta baixo desemprego. O artigo sugere que nos EUA há 6,5% de desemprego, o que é verdade. Mas esquece de duas coisas: primeiro, a taxa de desemprego americana é historicamente baixa; segundo, até a “semana passada” e desde a crise de 2008, a empregabilidade dos gringos fica muito abaixo do necessário. Veja os gráficos abaixo:

emprego brasil 2 emprego eua 1

3. Mito do mais baixo desemprego da história: A reportagem, no melhor estilo de filmes “B”, deixa o ápice para o final. Segundo o jornalista (?) “Já foram apuradas no passado, com outros critérios, taxas iguais ou mais baixas” [negrito introduzido por mim]. Pelo amor da inteligência! Se a base de cálculo era diferente como é possível fazer uma comparação!

Não se trata, portanto, de um artigo de meio de imprensa. Trata-se de uma peça publicitária para atacar setores políticos. Não se insere no rol do melhor jornalismo. Se inscreve no grupo das piores propagandas, esforço de engodo junto ao interlocutor.

Na mesmo linha, a imprensa tem noticiado nos últimos meses a “alta da inflação”. Em entrevista à radio CBN um professor de economia (perdão por não lembrar referências) destacou que a “luz vermelha” da inflação está acesa. Afinal, se mantidos os valores atuais da inflação nós chegaríamos ao final do ano no “teto da meta de inflação do Banco Central”. Veja mais um exemplo da síndrome da inflação na figura abaixo:

inflação 2

Mas… “Teto da meta de inflação do BC”… Seria isso o apocalipse? Ou seria algo cotidiano para o Brasil nas últimas décadas?

Considerando que o sistema de Metas de Inflação foi introduzido em 1999, foram raras as vezes nas quais a inflação ficou no “núcleo da meta”. Foram inúmeras as vezes que a inflação chegou no “teto da meta”. Veja o gráfico abaixo:

inflação 1

Segundo o oráculo Clóvis Rossi, o jornalismo não produz “verdade”. Produz a melhor versão dos fatos. Acho irreprochável a primeira parte. Afinal, o ideal iluminista de verdade absoluta obtida por simplórios padrões cartesianos  já foi derrubado por, entre outras, noções de sociologia do conhecimento de base individualista metodológica ou dialética marxiana. Entretanto, isso NÃO dá aval para meios de imprensa transformarem o entendimento da realidade brasileira em uma briga de torcidas, através de um esforço de convencimento por uma ficção reproduzida mil vezes para ganhar contornos de verdade.

Talvez a sociedade da informação evidencie de forma radical seu paradoxo: nunca foi tão difícil obter informações para o adequado entendimento da realidade. Se não entendemos, como podemos nos mover?

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada. (Eduardo Alves da Costa)

Abraços a todos!