Sobre a Casa Comum

Olá!

laudato

O Papa Francisco, em maio deste ano, lançou a encíclica Laudato Si (Louvado Sejas), que, em uma primeira aproximação, trata da questão ambiental. Porém, o conteúdo da encíclica trabalha com correção raras vezes vista as raízes humanas dos problemas ambientais em uma perspectiva que vai além das formas tradicionais de entendimento da relação do Homem com o meio a sua volta.

Em primeiro lugar, há uma tendência especialista e tecnicista no entendimento dos problemas ambientais. Desde a visão parcial de diferentes ciências – Biologia, Química, Geografia, Economia, História – são criadas respostas fragmentadas e, frequentemente, incomunicáveis acerca dos danos da ação humana sobre o meio a sua volta. A Geografia tem uma visão sistêmica acerca do seu Objeto de Estudos: o Espaço Geográfico. Entretanto, um ciência isolada carece dos melhores recursos para entendimento do problema ambiental. A relação Homem-meio só pode ser adequadamente apreendida em uma perspectiva multidisciplinar e transdisciplinar.

A encíclica apresenta o problema ambiental com base em um dialogo entre diferentes áreas dos saberes atuais, incluindo as ciências humanas. Assim, novas dimensões da problemática ambiental se destacam. As contradições sociais geradoras de pobreza e de exclusão não podem ser negligenciadas quando se busca o entendimento das raízes humanas dos problemas ambientais. Dessa forma, o entendimento das causas múltiplas dos danos ambientais não apenas englobam o entendimento da demanda de outra sociedade (não consumista, não promotora da alienação do homem) como se desdobra em uma exigência política de fundo ético: o resgate de uma relação Homem-meio adequada exige condições inclusivas nas estruturas sociais a serem criadas. O entendimento papal do problema transcende resultados meramente “científicos” exigindo um posicionamento da pessoa diante do problema para construção de outra sociedade que seja adequada ao humano.

Se a encíclica parasse aqui, já seria um texto de vanguarda no entendimento da condição humana atual.  Mas ela vai além. A Modernidade caracteriza-se pela acentuação do individualismo em diferentes níveis, inclusive no entendimento antropocêntrico insustentável da natureza. Para o Homem Moderno, quanto mais ele se coloca em distinção e de forma superior à natureza, quanto melhor. Para ilustrar, na manhã de hoje, em uma reportagem sobre a fruticultura no sertão semi-árido, um entrevistado sugeria que, com a irrigação, o sertão poderia ser “conquistado”. Trata-se do velho entendimento de natureza como inimiga a ser superada e dominada. Se esse domínio ocorrer, os “tesouros” ilimitados podem ser explorados. Enquanto perdurar essa visão é impossível viabilizar uma nova forma de existência no meio. Essa visão é fruto de uma sociedade geradora de exclusão na medida em que seu individualismo exacerbado valoriza ideologias de fundo utilitarista e imediatistas. Apenas com uma crítica profunda à formação da sociedade Moderna, antropocêntrica, é possível a criação de outra sociedade que possa ter uma adequada existência no meio natural a sua volta.

Claro que, em se tratando de um documento pontifício, o cristianismo católico é colocado como um caminho para superação dos problemas socioambientais. Neste ponto, sendo eu desprovido de qualquer relação institucional ou não institucional de fundo religioso, seria um momento de afastamento e desabono da encíclica. Minha surpresa ter encontrado formas de compreensão (desde um não-católico) das perspectivas religiosas colocadas pelo Papa Francisco.

Apesar das discordâncias, há duas significações etimológicas mais aceitas para a palavra “religião”: re-ligar, entrar em contato com os entes dos quais se encontra separado; re-ler, entender de outra forma, atualizar o entendimento. As duas significações são devidas às novas e necessárias formas de colocação do homem frente aos outros homens e frente ao meio a sua volta. Elas acompanham o entendimento buberiano (Martim Buber) do homem como ser “em relação”. O Homem se atualiza constantemente devido as maneiras como ele entra em ralação com as coisas e pessoas a sua volta: relação Eu-Isso, objetal, limitada funcional; relação Eu-Tu, face-a-face, plena; Eu-Tu Eterno, plena, dotada de sentido e que possibilita a atribuição de sentido às experiências humanas. A dificuldade de compreensão da relação Eu-Tu e Eu-Tu Eterno diz respeito ao nosso entendimento cartesiano, causal-linear, da realidade. Há que se buscar a adequada compreensão dos processos inerentes ao Homem nas diversas formas de relação possíveis.

Através dessa perspectiva holística é que a encíclica adéqua o cristianismo com o estado da arte do ambientalismo não cartesiano da atualidade. O texto propõe, ainda, uma leitura mais rebuscada e contextualizada da Criação comparativamente ao entendimento cotidiano. Em uma leitura bastante comum, Deus disse que toda a Criação estava disponível ao homem para usá-la como quisesse. Daí, uma raiz profunda da separação Homem-natureza e a tendência, talvez insuperável, de exploração, de domínio, do Homem sobre as coisas a sua volta. Entretanto, Francisco destaca a Criação como um ato de amor, o mesmo amor que remete à relação Eu-Tu e Eu-Tu Eterno e, portanto, que não está restrita ao utilitarismo imediatista e individualista da relação Eu-Isso.

Feita toda essa introdução, resta agora a leitura do texto. Segue no link abaixo o arquivo com a Encíclica Laudato Si.

enciclica

Trata-se de um texto de alto valor científico e filosófico que abrange temas de Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Filosofia. Entretanto, foi escrito com clareza exemplar e pode ser lido por pessoas sem formação acadêmica em qualquer destes campos. Ainda assim, como um recurso de aprimoramento de entendimento e para reforçar a qualidade da carta encíclica, seguem outros textos, comentadores e entrevistados abaixo:

1. Um texto de um “papa” do ambientalismo mundial, o mexicano Enrique Leff que destaca a necessidade de um novo padrão de racionalidade para o adequado entendimento dos problemas ambientais: Rumo à racionalidade ambiental

2. Uma crítica ao entendimento Moderno tradicional da realidade, de fundo cartesiano e causal nas palavras do Doutor em Filosofia Marcelo Pelizzoli: RESGATE DIALÓGICO-AMBIENTAL DESDE UMA POSTURA HERMENÊUTICA

3. Entrevista com Leonardo Boff, teólogo brasileiro, acerca da encíclica: Ecologia integral. A grande novidade da Laudato Si’. “Nem a ONU produziu um texto desta natureza”. Entrevista especial com Leonardo Boff

4.Entrevista com Edgar Morin, sociólogo e filósofo francês: “A Laudato Si’ é, talvez, o ato número 1 de um apelo para uma nova civilização”. Entrevista com Edgar Morin

Ainda, para ilustrar, seguem dois vídeos que já tiveram ampla divulgação nas redes sociais:

1. A História das Coisas. Apesar de ser um vídeo com conteúdo de boa qualidade, acaba por se inserir em um contexto reducionista, principalmente tendo em vista a envergadura da Carta Encíclica e do artigo de Enrique Leff, por exemplo. Nas palavras de Marilia Freitas de Campos:

“Se a educação ambiental é uma ação política, ela exige posicionamento. Isso significa que o pensar e o agir educativo ambiental trazem diferenças conceituais. Essas diferenças podem ser sintetizadas em alguns grandes grupos: a educação ambiental como promotora das mudanças de comportamentos ambientalmente inadequados – de fundo disciplinatório e moralista -; a educação ambiental para a sensibilização ambiental – de fundo ingênuo e imobilista; a educação ambiental centrada na ação para a diminuição dos efeitos predatórios das relações dos sujeitos com a natureza – de caráter ativista e imediatista; a educação ambiental centrada na transmissão de conhecimentos técnico-científicos sobre os processos ambientais – de caráter racionalista e instrumental; e a educação ambiental como um processo político, crítico, para a construção de sociedades sustentáveis do ponto de vista ambiental e social – a educação ambiental transformadora e emancipatória.”

O vídeo se encaixa de diferentes formas nas três primeiras categorias, mas não na última categoria, a educação ambiental de transformadora e emancipatória. Ainda assim, segue o vídeo abaixo:

2. Outro vídeo de ampla circulação nas redes sociais. Aparentemente, trata-se de uma obra com mero objetivo de sensibilização do espectador. Entretanto, um olhar mais atento leva ao entendimento de uma condição alienada, imoral, anti-estética e, óbvio, ambientalmente insustentável do Homem atual.

Abraços e boa sorte a todos!

questões de revisão semestral

Olá!

Por demanda dos alunos da Humanas do Anglo São José, elaborei essa lista de questões de revisão semestral. Apesar de ser uma solicitação da Humanas, a lista é válida para todos os alunos do Anglo e do Poliedro.

São 30 questões divididas em três conjuntos temáticos:

A – Introdução ao pensamento geográfico; globalização e Meio Técnico-Científico-Informacional; cartografia.

B – Recursos Hídricos.

C – Evolução geopolítica mundial e geografia no atual cenário político, econômico e técnico.

Segue, também, um arquivo com as respostas das questões.

Como referência, todas as questões foram retiradas do site geografiaparatodos.com.br, um site bastante confiável como arquivo de questões diversificadas e outros recursos de geografia para o estudante de Ensino Médio, vestibulandos e professores.

REVISÃO SEMESTRAL

REVISÃO SEMESTRA gab

Abraços e boa sorte a todos!