Intolerância por toda parte

Olá!

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Há uma onda de intolerância varrendo a sociedade. Não se trata de um processo de um lugar específico. Mesmo com peculiaridades espaciais, percebe-se um ganho global de ódio, de incapacidade de ver o outro sem coisificá-lo.

Recentemente encontrei, preparando uma aula de aprofundamento, uma interessante caracterização da chamada “Era do Vazio”: “imediatismo do aqui e agora como valor em si próprio”, “individualismo hedonista, personalizado e narcísico”, “apatia”, “sedução generalizada”, “legitimação de todos os modos de vida”, “banalização da violência social”, “falsa coexistência de contrários”, “inversão dos ideais em que a verdade é soterrada” (em texto de João A. Frayze-Pereira).

Duas das características merecem destaque:

“Legitimação de todos os modos de vida”. Nunca houve como atualmente tamanha pluralidade de formas de entendimento e legitimação de si sob identidade a grupos diversos na sociedade: negros, LGBT, feminismo.

“Falsa coexistência de contrários”: Assim, a pluralização das formas de identificação na sociedade acentua as tensões entre os grupos desde, especialmente, os grupos ligados aos valores mais tradicionais (família tradicional, religião, nacionalidade).

É dessa forma que se manifestam os descontentes, rasos e irracionais em várias partes do mundo. Violência, coisificação do “outro” que pode ser o negro, a mulher, o homossexual. Para exemplificar, vejamos o imigrante, eterno “outro”:

Na virada do ano a imprensa europeia noticiou os ataques sexuais de refugiados na cidade de Colônia, na Alemanha. Segundo a imprensa, um arrastão de homens se desdobrou em furtos e violência sexual contra as mulheres alemãs realizado por refugiados sírios. Essa ideia motivou uma charge pouco elegante de Charlie Hebdo sobre o garoto Alan Hurdi, morto afogado quando a família tentava se evadir da Síria em direção a Europa (a gravura que aparece na abertura deste post). O problema é que o desenrolar das investigações evidenciou que os “apalpadores” de Colônia eram em minoria absoluta refugiados recém-chegado sendo que alguns criminosos eram alemães. Em reportagem do portal Opera Mundi,  Polícia conclui que ataques a mulheres em Colônia não foram cometidos por refugiados sírios. O estrago para os refugiados, entretanto, já estava feito.

Claro que o Brasil não poderia ficar fora dessa… O senhor Bolsonaro, aquele que sempre é “mal interpretado” (na sua própria visão) declarou sobre o acolhimento de refugiados pelo governo brasileiro que o país deixava a “escória” do mundo entrar. O episódio é relatado pela reportagem da revista Exame: Bolsonaro chama refugiados de “escória do mundo”.

A maior economia do mundo e referência do cenário mundial, EUA, também destila veneno com destaque para o principal candidato republicano à presidência, Donald Trump. Se o candidato é famoso pelas pérolas do preconceito, no ano passado, enquanto a pré-campanha ainda engatinhava, houve um anúncio de como ele faria política para obter a indicação em seu partido. Sugeriu que os migrantes mexicanos são traficantes e estupradores. A reportagem do El Pais mostra isso: Donald Trump insulta mexicanos ao anunciar sua candidatura.

Há portanto, uma onda mundial de intolerância, incapacidade de crítica e reflexividade. Quando não há soluções pela razão e pelo diálogo, há outras formas de fazer valer uma vontade. O problema é que essas formas podem não ser bem-vindas.

Abraços e boa sorte a todos!