A manifestação foi um fracasso. E…

Olá!

As manifestações do último domingo foram um aparente fracasso. Fracasso em termos absolutos devido ao reduzido número de participantes. Fracasso relativo frente às manifestações anteriores. Mas tudo isso pode ser mera aparência, parte de um conjunto maior no qual esses “fracassos” fazem todo sentido e exigem relativização.

Era uma vez…

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O Regime Militar no Brasil pode ser entendido didaticamente em fases:
Entre 1968 e 1973-74 o Regime apresentou sua maior dureza. As oposições todas alcunhadas de “comunistas” (como se isso fosse ofensa ou justificasse atrocidades) foram objeto de toda sorte de violência: prisões, torturas, assassinatos, exílios. Após 1974 o governo percebe o esvaziamento das oposições, mas ainda restam as cobras da ditadura, aqueles que fizeram o trabalho sujo para o Regime. Então era hora de eliminar esses remanescentes de extrema direita e preparar o caminho para a normalização democrática, agora que as esquerdas já estavam bem “disciplinadas”: Lei de Anistia, pluripartidarismo, tolerância a dois candidatos civis para Presidência no Colégio Eleitoral (Maluf e Tancredo, quanta ousadia).

Era outra vez…


Na eleição do primeiro Presidente pela via direta, a sociedade brasileira optou por… Collor. Depois de alguns meses de péssimo exercício político e econômico houve crescente indisposição do Presidente com os mesmos setores conservadores que o colocaram no poder. Foram insufladas manifestações, os caras-pintadas tomaram as ruas e o Presidente corrupto foi derrubado. O “espetáculo” da democracia se realizou nos dizeres do Jornal Nacional e, no lugar do chefe do executivo corrupto foi colocado… Itamar. A mesma imprensa fez os cidadãos acreditarem no movimento caras-pintadas, manipulou pelo convencimento de que houve exercício democrático institucional na derrubada de Collor e, finalmente, apontava os “predicados” do novo chefe do executivo, na verdade, um político até então desconhecido das massas e, após seu mandato-tampão, de volta ao ostracismo.

E agora…
A Presidente eleita já praticava, desde o início do segundo mandato, um estelionato eleitoral, implementando um governo que parecia mais a plataforma política dos derrotados nas urnas. Se queria trânsito com a direita, se deu mal, foi derrubada com direito ao show de horrores na Câmara no dia 17 de abril do ano passado. Tudo isso em meio a crescente loucura das ruas, com setores historicamente (e sempre) despolitizados clamando por ética na política (alguém leu Maquiavel?) com suas camisas da seleção brasileira de futebol, com seus cartazes exigindo Ditadura Militar.


Todo esse movimento de setores da imprensa, das ruas, de setores conservadores ou oportunistas da política resultou na queda da Presidente eleita e sua substituição pelo desconhecido Temer – outro desconhecido alçado ao estrelato.
Um governo que iniciou com estelionato eleitoral entregou o exercício da Presidência aos golpistas. Uso o termo golpe não em sentido bobbiano. Porém, se um grupo político usa trâmites distintos dos eletivos para chegar ao poder e implementar um programa avesso a demanda das urnas, isso é golpe.
Mas depois de meses de xingamentos em redes sociais, cusparadas, ameaças de agressões físicas a um senador, parece que uma calma ronda o purgatório. Em meio a uma profunda recessão, com aumentos recordes de desemprego, reprimarização da economia, destruição dos setores econômicos mais competitivos (pecuária, petróleo, engenharia civil), em meio a tudo isso, mais uma passeata conservadora organizada para o último domingo. Mas, quem diria, esvaziada em participantes.

Lamento de conservadores. Riso das esquerdas anunciando uma virada, a luz no fim do túnel. Será mesmo?

A imprensa (conservadora) não deu a devida atenção à manifestação. Não houve o marketing que as outras passeatas tiveram. Não houve catraca livre no metro. Quem sabe houve a mesma percepção que os militares tiveram em meados dos anos 1970 de que era hora de parar com o “povo na rua”, pois povo na rua por muito tempo, não importa quem e porque, não é bom para quem está no poder. Quem sabe houve a iniciativa de apagar as luzes depois da “festa da democracia” que em 2016 derrubou a Presidente para elogiar o obscuro novo presidente não eleito como o “salvador da pátria”, o “reconciliador”, “aquele que unificaria a nação”. Lembra, vagamente, o “espetáculo da democracia” do Jornal Nacional para os caras-pintadas. A História às vezes se repete como tragédia.

Para quem se diz de esquerda não há o que comemorar. Toda a pauta conservadora apresentada ao Congresso (petróleo, terceirização) é aprovada, não importa o quanto os poucos grupos contestadores organizados possam gritar. Quando não é aprovada imediatamente (Previdência) é por atritos entre os próprios setores políticos conservadores se digladiando (União, Estados e Municípios).

Para quem se louvou ao derrubar Dilma, ainda não há que se entregar. Afinal foi só uma passeata fracassada em meio à onda conservadora que veio com força não só no Brasil, pois Argentina, França, Reino Unido, Estados Unidos estão aí para mostrar.

De tudo isso resta uma coisa que poucos duvidarão como positiva. As passeatas com camisas da CBF eram lugares privilegiados para fascistas. Mesmos os críticos mais arraigados do governo Dilma, se dotados de alguma alfabetização política, se envergonhavam por marchar ao lado desses trogloditas. Ao menos esses analfabetos da política perderam um dos seus palanques. Sempre tem um lado bom…

Abraço e boa sorte a todos!

Vil metal e suas manifestações

Olá!

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A obra acima é “o cambista e sua mulher”, de Matsys de 1514. O “cambista” é o homem dos negócios com moedas, algo como o banqueiro da atualidade. Evidentemente destacado no quadro é a mulher do cambista, observando atentamente o ofício do marido enquanto passa descompromissada as páginas de um livro: a Bíblia. O pintor, talvez, esteja fazendo uma crítica às tendências materialistas do fim do Medievo e início da Modernidade, com o avanço do capitalismo em uma sociedade pautada pelo aumento da riqueza sem pensar nas causas, consequências e eticidade do processo.

Em alguma parte do livro folheado pela desatenta mulher há uma passagem mais ou menos assim: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza”.

Não quero com isso ter apelo religioso na crítica à formação de uma sociedade baseada no deus riqueza. Talvez a crítica valha para evidenciar a hipocrisia de uma sociedade que lê livros que condenam os adoradores do “cordeiro de outro” e faz exatamente a mesma coisa no cotidiano.

Mas, para além da hipocrisia, há que se pensar em um padrão desviante, uma doença, uma obsessão. A retenção do ouro, das riquezas, já foi entendida por diferentes psicanalistas como semelhante a retenção fecal, processo que lembra uma das fases de desenvolvimento da libido em Freud.

“O vulgo captou plenamente a relação inconsciente que existe entre a matéria fecal e o dinheiro, a que chama “o vil metal” ou o “dinheiro sujo”, e muitas situações econômicas são igualmente definidas com termos usados de maneira corrente para designar as fezes ou o que está vinculado a elas. Na Argentina, chama-se quem não tem dinheiro de “seco” — e “seco” também é o indivíduo com prisão de ventre”. (Tallaferro)

Se na Argentina a prisão de ventre é tratada por “seco”, no Brasil pode ser tratada como “apertado”, denominação semelhante a de quem está represando seus gastos.

Para aprofundar esse tema interessante, segue um texto apresentado no site “outras palavras”. Clique no link ao lado: Capitalismo, dinheiro e excrementos.

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Boa sorte a todos!