Eleições na França

Olá!

Emamanuel Macron e Marine Le Pen (Foto: Reuters)

Terminou o primeiro turno das eleições presidenciais na França. Os candidatos à “esquerda” foram derrotados de formas mais ou menos contundentes: Mélenchon teve 19,61% dos votos enquanto Hamon conseguiu 6,34%. O segundo turno francês tornou o ex-prefeito de São Paulo profético dado o enfrentamento entre a direita liberal (Macron, 23,86% dos votos) e o nacionalismo, aparentemente fascista, de Le Pen (21,45%). Aparentemente a “esquerda” vive um péssimo momento na França, ou, não apenas: Reino Unido do BREXIT; EUA de Trump; Colômbia com as negativas populares ao acordo de paz com as FARC; guinada à “direita” da América Latina. Talvez haja uma mudança de rumos para a direita, mas as análises estão sendo feitas com base nos dados do momento, sem a inserção de conceitos mais apropriados e sem perspectiva histórica.

Primeiro, os dados imediatos da França não dão a “esquerda” como coisa do passado. O atual presidente é do Partido Socialista. O candidato de melhor colocação nas “esquerdas” se posicionou em quarto lugar no primeiro turno a menos de 2% da passagem para o segundo turno das eleições. Assim, não é possível evidenciar pela disputa político-partidária uma tendência causal, unilinear, inexorável da sociedade para a “direita”. Da mesma forma como o atual presidente do Partido Socialista (Hollande) substituiu o conservador Sarkozy, eventualmente os partidos com discursos conservadores podem voltar à presidência na França. São conjunturas.

O que não é conjuntura é a tendência de afastamento das estruturas políticas, partidárias e eleitorais das demandas efetivas de uma sociedade crescentemente descontente. Nos parágrafos anteriores eu utilizei os termos “esquerda” e “direita” entre aspas. Não partilho o ideal de desatualização dessas expressões. Apesar do pântano conceitual no qual elas foram mergulhadas nas últimas décadas, acredito ser possível sua utilização desde que sob conceituação prévia. Entretanto, questiono, qual foi o significado do Governo Hollande (de esquerda, do Partido Socialista) frente ao conservador Sarkozy? Acredito que muitas demandas conservadoras que não foram implementadas em governo Sarkozy, no cenário doméstico e externo, foram postas em prática na administração Hollande. Por quê?

As estruturas políticas-partidárias-eletivas tornaram-se agigantadas em paralelo com o crescimento das necessidades de grandes grupos políticos e econômicos (corporações) dos países de maior volume e complexidade econômica (EUA, França, Brasil, Argentina). Essas corporações tem necessidades específicas, se apóiam mutuamente e, inclusive, junto aos partidos políticos desde sua formação, organização das campanhas eleitorais até o exercício de governo. Vamos a alguns exemplos:

As organizações Globo dependem de contratos publicitários de centenas de milhões de reais para sobreviver. Esses anúncios são pagos por grandes corporações, como as ligadas ao sistema financeiro. Como as organizações Globo vão organizar seu jornalismo, sua produção ficcional (novelas) tendo em vista essas necessidades imediatas? Como a veiculação de notícias (ou informações em geral, visões de mundo) vai se relacionar com as estruturas e funcionamento dos partidos políticos? E como os partidos vão atuar nas Unidades Federadas mais importantes e no âmbito da União? Se as Corporações são contempladas há crescente afastamento do governo das demandas da população. Aproveitando meu próprio exemplo, a Globo, grupo de mídia, faz o papel de um marqueteiro atenuador das contradições. Mas a população, conscientemente ou não, se dá conta dessa dissociação. O problema é que, tendo apenas a percepção do problema e não sua racionalização, as soluções implantadas pelas pessoas podem não ser as mais adequadas.

Ainda no rol dos exemplos, o Primeiro Ministro grego de “esquerda”, Tsípras, saiu da Grécia em 2015 com a força de um plebiscito realizado logo anteriormente no qual a população do país disse “não” a submissão frente ao sistema financeiro. Aquele que saiu da Grécia para negociar com a Troika com a força de um tigre voltou ao seu país com manso como um angorá dizendo ter feito o “possível” nas negociações. Assim, estranhamente, “direita” e “esquerda” tem feito mesmos governos com diferenças pontuais que, em última instância, pouco representam.

Para finalizar, volto ao problema da percepção e não racionalização do problema pela população. Há desconforto das pessoas frente á classe política, mas não há um bom entendimento do funcionamento das estruturas de poder. Como, então, reage a população? Basta olhar o crescimento dos partidos de extrema direita, dos discursos de ódio (racismo, xenofobia), do ideal nacionalista-ufanista e, principalmente, da ascensão dos outsiders da política, daqueles que se dizem “de fora” do jogo político, mas que estranhamente resolveram “entrar”.

Retomando a velha distinção de classe em-si e classe para-si, as formas de ação irrefletidas das pessoas frente ao divorcio percebido com a política só reforça esse distanciamento. O voto nesses novos aventureiros da política não é um voto de descontente que se manifesta como o mais conservador, como o que mais mantém tudo aquilo que diz negar na política. Os brasileiros não precisam de muito apelo conceitual para entender isso. Basta lembrar do caçador de marajás que derrotaria a inflação com um tiro certeiro e ver no que deu: um governo dos mais problemáticos, de curta duração, mantenedor de tudo que era mais tradicional e carcomido na política brasileira. Quanto mais se revolta sem se entender o porque da situação, menores a chances de superação dos problemas.

Para mais sobre o assunto, leiam:

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Abraços a todos!