Chega de chavões

Olá!

O erro dos governos recentes – e por isso se desgastaram rapidamente – foi não ter exercido protagonismo na solução de saídas para o grave impasse que imobiliza e ameaça o país há 3 anos. Precisamos superar essa crise rapidamente em nome da esperança e do futuro. (Renan Calheiros)

Dizer-se de esquerda e começar um texto com uma citação de Renan Calheiros é instigante. Dizer que ele está certo é provocativo. Quase certo…

Os últimos “governos” não mostraram protagonismo para superar a crise. Mas que governos são esses e que crise é essa?

Claro que “governos” são os dois últimos e a “crise” se manifesta na economia, no emprego, na corrupção, no “denúncio-vazamentismo” que se estabeleceu recentemente. Mas não se solucionam essas “crises” sem se pensar em outra muito mais grave: para qual sociedade se está governando e quem está, de fato, no poder?

Dessa forma, últimos “governos” são os que se sucedem desde os anos 1990 sendo governos crescentemente alheios às necessidades populares mais candentes. São governos ligados ao grande capital doméstico e internacional, são governos da elite rentista, são governos que assumiram viés dirigista – donos da verdade que são – frente a uma sociedade vista como ignorante, dotada de quase-cidadãos que se contentam em receber benefícios (urgentes que sejam) ou promessas de futuro.

Em FHC houve o início de um modelo neoliberal que privilegiou rentistas aqui e no exterior, que avançou com uma falácia de privatizações que aumentou o custo para as famílias (principalmente de classe média) na medida em que dilapidava os serviços básicos públicos exigindo aquisição de serviços privatizados ou concedidos: educação, saúde, transporte.

Em Lula e Dilma um grande avanço se estabeleceu. “Pela primeira vez na história deste país” as classes baixas foram incluídas em um mercado consumidor por medidas diversas de distribuição de renda: bolsa-família; minha casa minha vida, aumento real do salário mínimo, aumento da empregabilidade em empregos formais (Lula). Mas, para além da inclusão via renda e consumo (dinheiro, bens e serviços), o que mais se fez? “Bebida é água e comida é pasto”, dinheiro, bens e serviços são todas as coisas que um cidadão, que uma pessoa pode querer?

Faltou mais uma coisa que não se vê há tempos, que não se manifestou no Brasil ao longo da Nova República: pensar a sociedade, o que ela é e como é possível desenrolar um novo modelo político que se adeque de fato aos atuais anseios sociais. Sobrou, entretanto, preguiça mental e covardia na tentativa de reeditar o já carcomido neoliberalismo com uma falsa roupagem social. O problema é que não funcionou. Não funcionou aqui e lá.

Se no Brasil assistimos à sucessão de escândalos e ameaças a estabilidade política, não é diferente na Argentina (Kirchner-Macri), no(s) golpe(s) no Paraguai, na instabilidade na Venezuela, na corrupção endêmica e cumplicidade com o crime organizado no México, na eleição do apresentador de tv xenófobo nos EUA, no plebiscito xenófobo BREXIT no Reino Unido, na quase eleição do partido de extrema-deireita na França, na permanência do governo de traços homofóbicos na Rússia, na queda do governo promíscuo com o capital na Coreia do Sul (substituído por outro do establishment).

Ideologia. A velha palavra que foi tirada de moda é resposta para esses anseios. Por “ideologia”, em um sentido pré-marxiano, entendo uma forma sistemática de compreensão da sociedade, pautada por vieses humanistas de solidariedade e sustentabilidade (ambiental, econômica, social, cultural). A fórmula ainda é desconhecida, mas o caminho já está dado: Direitos Fundamentais (para além dos de Primeira Geração); humanismo marxiano; intervencionismo de Estado na economia e nos serviços sociais; entendimento freireano do “outro”; democracia de fato que traduza (além do mero ato de votar) a participação efetiva da sociedade nas decisões de governo, que traduza o protagonismo da sociedade; o elogio ao coletivo (contra as patéticas afirmações individualistas atuais desde a economia competitiva até o “voto em pessoas e não em partidos”); práticas econômicas solidárias-sinérgicas e não individuais-competitivas.

Já passou do tempo de se pensar uma Nova Política para além de chavões de campanhas eleitorais.

Abraços a todos e boa sorte!