OCX: permanência das alternativas para um mundo multipolar.

Olá!

A fluidez do cenário atual ocorre em vários níveis. Aquilo que alguns chamam de pós-modernidade tem na velocidade e na obsolescência duas de suas caraterísticas essenciais. As formas de entendimento da realidade ficam velhas quando foram feitas na semana passada. No entendimento da organização política mundial isso não é diferente.

O mundo viveu mais de quatro décadas da chamada Guerra Fria. Claro que houve peculiaridades ao longo da segunda metade do século XX, evidentes nas diversas formas que os historiadores usam para periodizar esse tempo. Mas houve elementos comuns que dão margem ao óbvio, qual seja, nossa capacidade de denominar esse conjunto de fenômenos como “Guerra Fria”: bipolaridade entre EUA e URSS; dois sistemas econômico-político-ideológicos de organização da sociedade; corrida armamentista; propaganda política. O mundo de hoje, da velocidade dos processos, é difícil de ser denominado para além de “pós-Guerra Fria”.

Os anos 1990, com o fim da URSS, foram marcados por uma espécie de ensaio dos EUA na utilização do seus diferenciais econômico e militar para se colocarem como potência mundial unipolar. A Doutrina Bush de 2001 era a sistematização dessas iniciativas. A Crise Americana, a Crise Europeia, a contestação aos EUA por países como Irã e Coreia do Norte, os fracassos americanos no Iraque e no Afeganistão evidenciaram a incapacidade dos EUA organizarem o mundo como potência única.

No final dos anos 2000 a multipolaridade parecia ser a tendência mais forte. Afinal, o G20 ganhou importância frente ao velho G7 (ou G7+1 na época); o Brasil quitou sua dívida com o FMI que veio pedir mais recursos aos países “emergentes”; MERCOSUL, UNASUL, IBAS, APAS, ASA; e BRICS, com o acréscimo da República da África do Sul, com o Novo Banco de Desenvolvimento, com o Arranjo de Reservas. Mas quando a marca de um tempo é a mudança, nada é certo.

Em meados da década de 2010 houve perceptível redução do crescimento das economias da China e da Índia; a Rússia teve, além de redução do crescimento econômico, problemas internacionais, especialmente na Ucrânia; a Argentina, como boa parte da América Latina teve uma guinada econômica ortodoxa, sujeição ao deus-mercado e capachismo (eterna síndrome de vira-lata) frente aos EUA; o Brasil dispensa comentários.  Assim, vários projetos ou organizações do mundo “pobre” para contestação de uma ordem historicamente injusta começaram a fracassar. Vitória dos países “ricos”, aqueles que sempre ganham. Mas “ainda estão rolando os dados”.

Se alguns países pobres se mostraram mais frágeis no processo de inserção autônoma no cenário mundial (Brasil, Argentina, México, Coreia do Sul), outros buscaram reorganizar suas agendas e prioridades com vistas a permanência de um projeto nacional autônomo. É o caso de Rússia, China, Turquia, Índia.

Uma sigla ilustra essa perspectiva e merece nossa atenção: OCX (Organização para Cooperação de Xangai). Trata-se de um clube de países envolvendo como membros até a atualidade China, Rússia, Índia, Paquistão, Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Tajiquistão. Esses países reúnem um percentual significativo da população e do PIB do planeta, são dotados de recursos naturais essenciais (inclusive reservas de petróleo e gás natural), além de terem algumas das potências nucleares do planeta. A crescente cooperação e o acréscimo de novos países evidencia uma força respeitável para colocação dos seus problemas e demandas na agenda mundial. Finalmente, a forma de negociação externa desse bloco se orienta pelo Ganha-Ganha, diferente das recorrentes formas de imposição via exploração das potências do Norte sobre os países fracos do Sul.

Se BRICS, MERCOSUL e Brasil ficaram pela estrada, essas novas potências (ou nem tão novas para a Rússia) consertaram o carro na viagem, exigência de um tempo, e seguem para uma melhor colocação na política mundial.

Para ilustrar e aprofundar, algumas informações e textos:

Segue abaixo um infográfico antigo, de 2015, anterior ao ingresso pleno de países como a Índia e o Paquistão, mas que dão a dimensão desse clube:

O texto que segue é uma abrangente e didática explicação de Pepe Escobar sobre a OCX: Ocidente não sabe nem do cheiro do que a Eurásia está cozinhando.

Finalmente, esse último texto mostra a força da Organização tendo em vista um membro da OTAN e histórico pleiteante a membro da UE se dizer apto a ingressar como membro pleno da OCX: Se a UE não se decidir, Erdogan ameaça levar a Turquia para a Organização de Xangai.

Abraços a todos e boa sorte!